terça-feira, 2 de junho de 2009

Confissões de Deus no Inferno

(conto publicado na Revista da MTV ano passado)

Estou no Inferno. Rua Augusta, 501, Consolação, São Paulo. É aqui que passo minhas noites depois de “trabalhar”. Do canto do balcão, tomo minha cachaça e reflito sobre a vida, assistindo bandas independentes de nomes pretensiosos e inúteis, como os “Dead Rats” ou os “Surfmotherfuckers”.
Meu nome também é pretensioso e inútil. Chamo-me Deus. Mas não nasci Deus. Escolhi depois, com base nos fatos.
Se eu não achasse arte uma bobagem conceitual, poderia me considerar simplesmente um artista. No entanto, estou acima disso. Sou um Criador. De vida. E isso não é metáfora: minha especialidade é fazer filhos.
Assim como Deus, sou contra camisinha e aborto. Odeio chupar bala com papel. E acho aborto uma injustiça com a mulher. Todos sabem que a mulher é biologicamente concebida para engravidar. A cada mês que não engravida, seu corpo manda uma mensageira da tragédia: a TPM. Depois, chora sangue.
Minha santa vocação não me permite deixar as mulheres sofrerem. Por isso as engravido. Hoje, engravidei mais uma. Chama-se Maria, e está noiva. Prefiro mulheres compromissadas porque meus filhos precisarão de pais que cuidem deles.
Maria, apesar de não ser virgem, é divina. Conheci-a na feirinha da Praça Benedito Calixto, acompanhada do noivo. Segui-os por uns dias e adquiri conhecimento suficiente para me introduzir em sua rotina e a seduzir.
Típica mocinha da Vila Madalena, Maria é do tipo romântica. Adora (como todas as românticas) encadear coincidências casuais e torná-las indícios de uma força maior, um Destino do qual ela não pode escapar. E, para alguém chamado Deus, não há melhor aliado que o Destino.
Aqui cabe dizer que, diferente do que possa parecer, não sou infalível. Sou um Deus que erra (afinal, diferente do Deus bíblico, eu existo). Entre perfeição e erro, fico com o segundo. Gosto de arriscar. E, com mulheres, quem arrisca, petisca. Se não petisca, pelo menos aprende alguma coisa. É esse o princípio fundador da minha escola da vida.
Além disso, não me interessa o amor platônico porque não farei meu filho com a ajuda de nenhum Espírito Santo. Meu negócio é com a carne e os prazeres que só ela proporciona.
Apesar de minha experiência com alguns atalhos, a conquista jamais pode se tornar artificial. Deixo-me envolver de verdade e me apaixono profundamente por todas as mulheres com quem me relaciono. Afinal, serão as mães de meus filhos. E com Maria não foi diferente.
No entanto, como já disse, agora estou no Inferno. De corpo e alma. Tento exorcizar a presença de Maria de meu coração. Mesmo apaixonado, não posso me dar ao luxo de me prender a uma mesma mulher. Um homem cujo objetivo é a geração de vidas tem que fazer uso de sua biologia e espalhar sua semente com a maior freqüência possível. Só que, por mais que essa seja uma escolha consciente, ela não é nada fácil.
Passei hoje minha última tarde de amor com Maria. Tenho certeza que ela engravidou. Depois, ficamos ouvindo, abraçados em posição fetal, o melado som de Marisa Monte. Foi a melhor forma de me despedir sem dizer adeus.
Talvez por isso agora eu esteja aqui ouvindo essas bandas podres e barulhentas, virando essa amarga cachaça. Esgotou-se minha tolerância pra doçura. De doce, basta a vida. E aqui no Inferno posso dizer: Há Deus. Eu.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Show de Chico

Nogueira tinha inveja de Chico Buarque. Admitira isso para si mesmo quando assistiu a uma série de documentários em que o músico aparecia em algumas cidades do mundo falando sobre política, futebol, carnaval e mulheres. Não que sua música incomodasse. Aliás, muito pelo contrário: considerava-o um dos melhores compositores brasileiros. Sua inveja era motivada pelo excesso de atenção que aquelas meras divagações de botequim recebiam de todos. Ou melhor: de todas. Entre elas, sua esposa, Célia.
- É um cafajeste. Seu mérito é saber dizer o que elas querem ouvir. Mesmo hoje em dia, velho, magrinho, cabeçudo, ele ainda causa furor nos corações femininos. As mulheres o ouvem e ficam ouriçadas. Até as mais fiéis trairiam seus maridos com Chico Buarque. Afinal, é o Chico Buarque. – bradava Nogueira nas mesas de bar - Só que a intenção de nenhuma seria necessariamente se casar com ele. A questão é poder dizer para si mesma: “Fiz amor com Chico Buarque.”, e sentir que toda a poesia de suas músicas poderia ser para ela. Ou seja, o cara leva apenas a parte boa. O casamento fica por nossa conta.
O fato é que depois de anos longe dos palcos, finalmente Chico Buarque faria um novo show. Nogueira bem que tentou convencer sua esposa a não ir. Falou que os ingressos seriam caríssimos, que o público ficaria amontoado em mesas apertadas e posições desconfortáveis. Mas não houve jeito. Afinal, era o Chico Buarque.
No dia do show, desde a hora em que chegou do trabalho, Nogueira foi apressado pela mulher. Tomou um banho rápido, vestiu qualquer coisa e... esperou. Célia precisaria provar todas as roupas do armário antes de sair.
Horas depois, partiram. E como se não bastasse o congestionamento da hora do rush, a estressada Célia reclamou de Nogueira durante todo o trajeto, como se fosse ele o responsável pelo atraso.
Na casa de show, Nogueira pediu uma cervejinha pra relaxar. Funcionou tanto que, depois de alguns goles, tentou até reconciliar-se com a esposa. Acariciou sua coxa por baixo da saia, beijou seu pescoço, mas ganhou um definitivo “chega pra lá” quando entrou em cena Chico Buarque.

Depois de assistir ao show, mal acomodado e calado, Nogueira tinha ao menos a esperança de que o humor de Célia teria melhorado. Ela, porém, continuava inexplicavelmente tensa e um tanto histérica.
Em casa, já na cama, o piti derradeiro:
- Odeio esse travesseiro! Minha cabeça dói, meu pescoço fica torto... A culpa é sua Nogueira! Você e sua mania de economizar em tudo. Seu egoísta! – berrou Célia, atacando o travesseiro para longe. E antes que o marido tivesse direito de resposta, ela deitou-se, fechou os olhos e decidiu dormir.
Nogueira deitou-se virado para o outro lado, transtornado. Estava farto de tudo aquilo, farto de seu casamento, farto de Chico Buarque. Rolou na cama por umas boas horas sem conseguir dormir, até que ouviu no meio da madrugada uma voz, que cantava:
- O meu amor, tem um jeito manso que é só seu...
Olhou para a esposa, mas sua boca não se movia. Ela estava dormindo. O canto vinha de dentro de sua calcinha. Cuidadoso, removeu-a. Constatou que nela havia sangue, e que os lábios que cantavam eram os lábios de sua vagina. E cantavam para Nogueira:
- Eu sou sua menina, viu? Você é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que você me faz.
Então, compreendeu tudo, e perdoou: ela estava de Chico.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Voyeur


Lucas foi desde cedo um observador. Armado de sua luneta, começou fascinado pelas estrelas e constelações. Sabia de cor o nome de todas, inclusive das que não avistava do hemisfério sul.
Mas o comportamento dos seres humanos o interessava muito mais que as estrelas. De seu canto no fundo da sala de aula, estava sempre atento a tudo o que acontecia a sua volta. Era desses alunos que ninguém se lembra que existe, enquanto ele próprio lembrava-se de todos com quem já estudara.
Não bastava olhar e enxergar. Para ele, o fundamental era não ser visto para que não interferisse na ação observada e dessa forma a natureza humana lhe fosse desvendada em sua essência mais pura.
Conforme envelhecia, seu potencial observador crescia. Tinha um faro especial, sabia onde coisas interessantes aconteceriam. Testemunhou inúmeros crimes e até assassinatos, mas nunca intervinha, mesmo que pudesse salvar alguma vida. Foram possivelmente as estrelas que o ensinaram que uma vida, ou mesmo muitas, eram insignificantes em relação à imensidão do universo.
O mais impressionante era a capacidade que tinha de não ser visto. Por jamais interferir na realidade, sua presença era irrelevante às pessoas a sua volta. Cada vez permitia-se aproximar mais e mais da situação observada, a ponto de lunetas e binóculos tornarem-se desnecessários. A lente eram seus olhos, o zoom eram seus passos.
Tornou-se obcecado por detalhes. Não se satisfazia mais com o mundo exterior. Como um fantasma, passou a penetrar nos lares das pessoas, partindo do macro para o micro como um cientista em busca do átomo.
Nesses lares, seu maior interesse era observar casais fazendo sexo. Seus fins eram científicos, mas sua essência humana o obrigava a masturbar-se. Aqueles eram seus únicos momentos de prazer físico.
Um dia, conheceu um casal dado a malabarismos sexuais. Ficou fascinado, pois, além de ser virgem (obviamente), jamais tinha visto nada parecido: a penetração não se dava apenas por via vaginal. O tamanho do membro masculino era bem acima da média. Mais impressionante ainda era a capacidade do pequeno orifício anal da fêmea em recebê-lo.
Acabado o sexo, Lucas aproximou-se do orifício para registrar as conseqüências daquela enrabada monumental. Olhou no fundo do olho do cu. De repente, foi tomado pela mais estranha sensação. Seu corpo sofreu uma súbita mutação. Olhou-se no espelho e viu que se tornara um pinto gigante.
Não havia mais dúvidas: voyeur de cu, é rola.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O autobiógrafo





Eugênio nasceu mergulhado nos livros. Leitor apaixonado, desde muito cedo alimentou o fetiche de se tornar escritor. E sua certeza de um futuro promissor na literatura era tanta que jamais se esforçou para ser descoberto. Sabia que isso viria naturalmente. Por isso, sua única preocupação em vida foi escrever.
E escreveu, literalmente, o livro de sua vida. A partir dos quatro anos de idade, começou uma espécie de diário que seria sua única obra. Todos os dias, escreveria sobre o que vivera. Como praticamente não vivia, acabava sempre escrevendo sobre escrever.
Sentia-se lido por todos a sua volta. Não estava vivendo, estava sendo narrado por alguma força maior. A ele cabia apenas transcrever essa narrativa em seu Livro da Vida.
Conforme envelhecia, detalhes iam ganhando cada vez mais importância. A exigência tornou-se tanta que um dia não mais conseguiu parar de escrever, pois o simples ato de parar teria que ser minuciosamente descrito por horas.
Seu único assunto passou a ser o movimentar de seus dedos nas teclas de sua máquina de escrever, e as letras e palavras que disso surgiam. Era um ciclo sem fim, uma obra condenada ao infinito.
Um belo dia, seus dedos tornaram-se independentes, e passaram a escrever sem necessidade de comando do pensamento. Com isso, sua cabeça ficou livre para pensar sobre outros assuntos. E percebeu a imensa quantidade de páginas que produzira. Era certamente o maior livro de todos os tempos. E ainda estava crescendo.
Além disso, como todo grande livro, aquele seria para poucos. Poucos teriam a coragem de ler um livro com tantos páginas. Para ser capaz disso, alguém teria que começar a ler ainda jovem e nunca mais parar.
Mas, mesmo os poucos que tivessem essa iniciativa já lhe pareciam muitos. Uma obra importante como a sua não merecia um acesso tão fácil. Não bastava seu estilo hermético nem tampouco a enorme quantidade de páginas. A humanidade precisaria ter ainda mais dificuldades.
Constatou também que deveria morrer. Os melhores autores estão mortos. Sua obra só receberia o devido valor se ele não mais estivesse vivo. Esse era, aliás, o único fim possível para a narrativa de sua vida: a morte.
Seus dedos, então, pararam de datilografar. No meio de uma palavra. Aquele era o fim perfeito para o livro. Faltava dar fim a sua própria vida.
Espalhou suas páginas por todo o quarto e colocou-se no centro. Com um isqueiro, queimou uma das folhas e não demorou para que o fogo se espalhasse. Para ler seu livro, a humanidade teria que realizar um cuidadoso processo de restauração.
Imaginou que a dor das queimaduras seriam menores que a falta que faria ao mundo. Enganou-se: morrer doeu, e foi inútil.

Namoro por telefone


Lauro ficou com Suzana, o amor da sua vida, um dia antes dela pegar o avião para Barcelona, onde moraria pelos próximos seis meses. Foi uma noite inesquecível, na qual o sabor da conquista era proporcional ao sentimento de tragédia. A saudade doeria, mas aqueles poucos momentos de intensa paixão eram um potente combustível para uma espera de séculos, se preciso fosse.
Para Suzana, aquela era apenas uma farra de despedida e, embora tivesse deixado clara a vontade de viajar livre, leve e solta, acabou cedendo à paixão de Lauro e começando um namoro. Prometeu telefonar todos os dias em que estivesse fora.
O primeiro telefonema, porém, só veio no segundo dia de viagem. A jovem alegou que chegara tarde demais para telefonar e já foi contando todos os detalhes da viagem até então. Lauro ouvia tudo com devoção. A sensual voz de Suzana soava como uma lambida a distância em seus ouvidos. Ela, por sua vez, surpreendeu-se com a capacidade de ouvir de seu novo namorado. Todos os assuntos sobre os quais discorria pareciam interessantíssimos a seu ouvinte. Sentiu nascendo ali não uma paixão, mas um verdadeiro amor.
A partir de então, telefonava todos os dias narrando as novidades, descobertas e experiências vividas intensamente. Lauro ouvia em êxtase até as maiores banalidades. Queria saber de tudo nos mínimos detalhes para visualizar Barcelona e sentir-se ao lado de sua amada pelo menos na imaginação.
Após aproximadamente um mês de viagem, Lauro sofreu com a primeira quebra de rotina. Ficou cinco dias sem receber um único telefonema ou e-mail de Suzana. Sem se desgrudar do telefone, chorava convulsivamente imaginando os males que ela poderia estar passando. Quando estava a ponto de ligar para a Interpol para comunicar o desaparecimento internacional, seu telefone tocou e ele ouviu a voz que era sua razão de viver.
Envergonhada, Suzana confessou por telefone sua primeira traição:
- Desculpe, Lauro... Eu estava completamente bêbada. A galera toda dançando, se abraçando. Na hora, meu coração não viu mal nenhum em ficar com ele. No dia seguinte eu morri de vergonha, não consegui mais te telefonar. Mas falar com você me faz tanta falta, é como se eu precisasse te contar as coisas para me sentir vivendo... Me perdoa!!!
Aquela traição doeu fundo no coração de Lauro. Mas o prazer de ouvir novamente a voz de sua amada era maior que qualquer rancor:
- Faça o que fizer, quero que você nunca mais deixe de me telefonar e me contar tudo. Quero saber de tudo, sempre.
A partir daquele dia, para felicidade de Lauro, Suzana nunca mais deixou de telefonar e contar tudo o que vivia, inclusive as cada vez mais freqüentes traições, com diferentes homens de todo o mundo. Casos com espanhóis, italianos, marroquinos, franceses, belgas e russos apimentavam suas narrativas, cada vez mais poéticas.
Lauro não só ouvia a tudo compreensivo como a estimulava com perguntas sobre os mais íntimos detalhes. Queria mostrar para sua amada que o vínculo entre eles era maior que tudo, e que Suzana nunca precisaria deixar de falar com ele.
Funcionou. Mesmo quando arranjou um namorado brasileiro no meio da viagem, Suzana não deixou de telefonar. Descreveu como conhecera Marcão, o início da paixão e o prazer de estar praticamente em lua de mel num lugar tão lindo como Barcelona.
De volta ao Brasil com o novo namorado, Suzana continuou telefonando diariamente para Lauro. E continuaria para sempre, não fosse Marcão flagrá-la um dia ao telefone e querer saber quem era o palhaço do outro lado da linha. Ela contou tudo.
Indignado, Marcão partiu para a casa de Lauro e cobriu-o de porrada. A surra começou com um bem aplicado “telefone” e terminou com sangue e dentes pelo chão. Suzana testemunhou o massacre aos prantos.
Mesmo com a boca cheia de sangue e alguns dentes quebrados, Lauro teve forças para pedir a sua amada antes que ela saísse abraçada com Marcão:
- Me liga!
Lúcida, Suzana respondeu apenas:
-Se liga.
E partiu, para sempre.

sábado, 15 de dezembro de 2007

O segredo da mulher fiel





Machado era um marido orgulhoso. Apaixonado por sua esposa, sabia que o amor era recíproco. Mais ainda: tinha certeza que ela, apesar de mulher, era fiel.
E, de fato, Milena era um exemplo de conduta. Belíssima, sensual e afetuosa, poderia ter todos os homens a seus pés. Mas escolhia não. Seu homem era um só: Machado. E com ele fazia questão de cultivar um relacionamento duradouro, edificado sobre a inabalável rocha da fidelidade.
Machado e Milena chegavam a ser motivo de inveja para os outros casais. Sempre apaixonados, as raras desavenças cotidianas que surgiam em público (jamais por ciúme) logo se transformavam em manifestações públicas de amor eterno, com carícias obscenas não pela sexualidade, mas pela felicidade explícita.
Quem mais invejava Milena era Cornélia, sua melhor amiga. Enquanto o casal vivia feliz há anos, ela não conseguia se manter namorando um mesmo homem.

Naquele dia, depois de perder mais um namorado, Cornélia foi chorar as mágoas na casa de Milena. A certa altura, porém, cansada de tanta perfeição, resolveu colocá-la contra a parede:
- Não é possível que você seja tão fiel! Admita pelo menos pra mim, sua melhor amiga, que já traiu alguma vez na vida!
Nessa hora, por trás da porta passava Machado. Não queria bisbilhotar, mas a ênfase da pergunta tornou impossível ele não ficar para ouvir a resposta. E disse Milena, santa:
- Jamais. Juro que sou fiel, não tenho por que mentir pra você, amiga. Fidelidade não é nenhuma tragédia. É uma escolha.
Mesmo já sabendo a resposta, de trás da porta Machado abriu um silencioso e largo sorriso. Sua vontade era arrombar a porta com toda força, mandar Cornélia plantar batatas e encher Milena de beijos. Mas, preferiu não revelar que estava ouvindo escondido. Poderia transmitir insegurança, e isso ele não queria. Considerava a insegurança a faísca inicial do incêndio da traição.
Dentro do quarto, Cornélia desistiu e chorou, desesperada por sua condição feminina:
- Eu não entendo! Não entendo! Como você pode ser tão perfeita? A sua fidelidade é uma sombra em minha vida. Eu te odeio! Não quero mais ser sua amiga! Chega!
- Pare com isso, Cornélia! Eu adoro você... E não sou perfeita. Ninguém é perfeito! – dizia, lamentando o desespero da amiga.
- Você é! Seres humanos comuns sentem desejos por outros seres humanos, mesmo casados.
- E quem disse que eu não sinto desejo por outros homens? – confessou Milena, com sincera naturalidade.
Pausa dramática. O choro de Cornélia e a respiração de Machado atrás da porta congelaram no mesmo instante.
- Desejo? Carnal?
- Claro! Mas eu não deixo que ele me tome. Trato de sublimá-lo. Sempre que sinto desejo por outra pessoa, eu escrevo. Poesias, frases, textos, o que vier na cabeça. E o desejo se transforma em Arte.
Cornélia, surpresa pela resposta e contente pela lição, calou-se e abraçou a amiga, fazendo as pazes. Machado, do lado de fora, afastou-se pensativo.
Apesar de racionalmente satisfeito por ter ainda mais certeza da fidelidade da mulher, seu coração começava a ser corroído pela consciência de que Milena desejava outros homens. Sentia, pela primeira vez, ciúme de sua esposa. Culpou-se por ter ouvido aquilo atrás da porta e tratou de tentar esquecer.

Na mesma noite, o jogo de pôquer com os amigos seria na sua própria casa, e a organização do evento semanal conseguiu-o distrair aos poucos. Quando todos foram chegando, as risadas, a cerveja e o jogo substituíram por completo suas preocupações.
A certa altura, porém, precisou buscar mais aperitivos na cozinha. De passagem pela sala de TV, flagrou Milena escrevendo algo em seu caderninho.
- Quer que eu leve os aperitivos lá na sala? – perguntou a dedicada esposa.
- Não. - respondeu seco, quase bufando. E saiu.
O que ela estaria escrevendo? Pior: qual de seus amigos seria a razão daqueles escritos? Voltou sem os aperitivos para a mesa de pôquer.
- Pô, Machado, cadê o amendoinzinho, meu? – reclamou um.
- Cala a boca, seu gordo! Hoje chega de jogo. Não vai mais ter pôquer na minha casa, vocês são muito folgados, acabam com todo meu amendoim. – afirmou, expulsando os amigos antes mesmo do fim do jogo.
Quando ele entrou na sala de novo, Milena estranhou seu comportamento:
- O que houve, meu amor?
“Cínica!” pensava Machado, mas dizendo de fato:
- Não estou me sentindo bem. Vou dormir.
- Então eu vou também. – respondeu Milena, prestativa.
- Não, continue aí escrevendo o que você estava escrevendo. – disse, quase sem conseguir esconder o desprezo pelo caderninho.
- Isso não é nada. Passou a vontade de escrever. Eu...
Indignado, Machado saiu andando e deitou-se na cama sem ao menos dar boa noite.

Sonhou que fuçava na bolsa de Milena em busca de seu caderninho. De repente, do teto, começava uma chuva de caderninhos, blocos de rascunho, guardanapos, qualquer coisa onde se pudesse escrever. As roupas da esposa no armário tinham bolsos cheios de papéis, não parava de aparecer mais. No banheiro, sentado na privada, Machado abria o rolo de papel higiênico e lia poesias por toda sua extensão.
Acordou no meio da noite, desesperado. Milena dormia como um anjo malvado. Levantou-se e foi lavar o rosto. Precisava tomar alguma atitude. E tomou.
Em silêncio, destruiu o caderninho de sua esposa. Depois, foi atrás de todos os papéis, canetas e lápis da casa e deu um sumiço em tudo. Feito tudo isso, voltou a dormir como se nada tivesse acontecido.

De manhã, quando acordou, sua esposa não estava mais na cama. Caminhou até a sala e ela estava no computador, digitando alguma coisa.
- Milena? Por que acordou tão cedo? Hoje é domingo!
- É que eu tive um sonho tão engraçado que eu resolvi escrever algumas coisas. Como não achei nenhum papel, resolvi digitar. Estranho que não tinha pap... – ia completar, mas foi interrompida pelo incontrolável Machado, que trucidou o computador bem na sua frente.
- Tá satisfeita agora, hein? Vagabunda! – disse “vagabunda” de boca cheia, e fez questão de repetir – Vagabunda!!!
- Mas o que foi que eu fiz? – desesperou-se a fiel esposa, estupefata.
Consciente da irracionalidade de seu ciúme, mas incapaz de conter o patético sentimento, Machado desabou em prantos, e implorou:
- Você pode fazer o que bem entender da sua vida. Pode até me trair se quiser. Eu só peço uma coisa, uma só: nunca mais escreva nada... Absolutamente nada!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Cisne Branco e Cabeleira


Camila era uma moça virgem e tímida. Atingira seus vinte e cinco anos sem jamais ter encontrado alguém digno de deflorar Cabeleira. (Cabeleira era como ela se referia a sua própria vagina, onde conservava seus pelos pubianos sem jamais os ter depilado, e que, portanto, há muito se tornaram similares a longos e sedosos fios de cabelo.)

Arnaldo era um jovem cuja vasta experiência sexual era desproporcional a sua idade: 17 anos. Orgulhoso de seu falo, apelidara-o de Cisne Branco por razões físicas que a imaginação do leitor será muito mais eficaz em visualizar do que meras palavras possam descrever. O fato é que Cisne Branco tinha até hino em sua homenagem (composto pelo próprio Arnaldo, obviamente), que algumas privilegiadas mulheres ouviam durante o ato sexual.

Camila e Arnaldo jamais haviam se cruzado até que um dia, no metrô lotado, Cisne Branco roçou Cabeleira. O contato durou poucos instantes, mas gerou um curto circuito em ambos os corpos.
Arnaldo foi ficando com o rosto vermelho e inchado, muito inchado. Sentiu sangue pulsando por todo seu corpo de forma tão intensa que seu pescoço esticou, sua coluna curvou-se pra trás, rígida, e suas articulações tencionaram-se sem que ele conseguisse movê-las.
Camila, por sua vez, começou a suar como nunca, por todo seu corpo. Sentia um calor inexplicável e foi ficando encharcada. Mal conseguia se sustentar de pé porque estava escorregadia, deslizando, até que foi ao chão como se fosse água.
A essa altura, as costas de Arnaldo estavam tão curvadas pra trás que ele tombou de cabeça em Camila. Vozes e gemidos passaram a ser ouvidos, mas não saíam de suas bocas, e sim de suas cinturas, vinham de dentro das roupas íntimas. Quem gritava eram os verdadeiros regentes daquela peculiar orquestra de corpos: Cisne Branco e Cabeleira.

As pessoas em volta não entendiam o que estava acontecendo, e foram ficando profundamente incomodadas com os intensos odores e secreções exalados por aqueles corpos.
Era um balé de dar inveja a qualquer companhia de vanguarda. Camila já formara uma quente poça a seu redor, e estava cada vez mais lânguida. De cabeça para baixo e pernas para cima, os movimentos de Arnaldo tornaram-se repetitivos e progressivamente mais fortes, até que ele regurgitou um caldo branco e gosmento, com um cheiro similar a cândida.
Nessa hora, Cabeleira gritou alto, a ponto de rachar um dos vidros do vagão. Cisne Branco murmurava alguma melodia, provavelmente seu próprio hino.
Mas o triunfal canto foi interrompido por um chute certeiro nas bolas de Arnaldo, desferido por um dos espectadores do bizarro espetáculo. O chute foi a faísca da explosão da revolta dos outros passageiros do metrô. Homens e mulheres avançaram e deram início a um rápido e eficaz linchamento. Sobraram apenas sangue e ossos. E nenhuma explicação.

O Torcedor Solidário


Mauricio Junior era o herdeiro de um grande império. Filho de um poderoso magnata, teve em sua infância tudo do bom e do melhor. Porém, mesmo protegido por uma vida em condomínio fechado, cedo percebeu que existiam pobres no mundo, e que eles eram a maioria. A portadora da verdade fora sua babá, Edinanci, num dia em que o menino se recusava a comer toda a comida do prato:
- Ô, Mauricinho! Você fica aí, com frescura, enquanto tem gente no mundo passando fome. Lá onde eu moro, meninos da sua idade tem que ir pra rua pedir esmola ou roubar se quiserem comer. Quem não vai, morre de fome.
O menino, com cinco anos de idade, não sabia o que era sentir fome. Mas, sabia o que era a morte: acabara de perder sua mãe, vitima de câncer. E morrer de fome não lhe pareceu nada agradável. Tratou de comer toda a comida do prato e abriu os olhos para o mundo a seu redor.
Por trás do insulfilm do carro de seu pai, passou a prestar mais atenção nos pedintes. Aos poucos, junto com uma grande pena dos pobres, lhe foi nascendo uma profunda vergonha por ter tanto dinheiro. Era podre de rico.
Quando conversava com seu pai sobre o assunto, ouvia bravatas orgulhosas:
- Eu gero milhares de empregos com minhas empresas. Estou fazendo a minha parte.
Mauricio Junior acreditava, mas não conseguia sentir-se melhor com isso. Preferia ter nascido pobre, igual a todo mundo. Não que a vida de um pobre lhe agradasse. Mas fazer parte do povo lhe fazia falta. Sentia-se um príncipe da Dinamarca em pleno Brasil.
Um dia, assistindo TV, descobriu o futebol, e percebeu uma luz no fim do túnel. O esporte era uma paixão nacional, que unia pobres e ricos, pretos e brancos, em um objetivo comum: a vitória do time.
Sua primeira atitude foi escolher um novo time pra torcer. Embora a família fosse de São Paulinos, ele optou pelo Corinthians. Seu pai ainda tentou alertá-lo:
- Corinthians é sofredor, time de favelado!
Mal sabia o pai que era justamente isso que o filho queria: sentir-se um favelado. Compartilhar a torcida e, principalmente, o sofrimento pelo time das massas.
Com o time escolhido, Mauricio Junior tratou de estudar. Conheceu os grandes craques, os jogos históricos, os títulos mais importantes, e sentiu-se preparado para conversar com qualquer um sobre o assunto. A partir daí, sempre que cruzava os porteiros de seu prédio, parava e conversava horas sobre a situação do time. Orgulhava-se de si mesmo por conversar com a plebe.
Os porteiros, por outro lado, não conseguiam se sentir a vontade com Mauricinho. Pra falar a verdade, alguns nem gostavam tanto de futebol. E o menino acabava atrasando o expediente deles. Mas como nada era maior que o medo de serem demitidos, tratavam de parecer muito interessados no assunto. Afinal, filho do patrão é patrão também.

O tempo passou e Mauricio Junior foi crescendo, cada vez mais iludido pelo massificante poder do futebol. Seu pai não o deixava ir a muitos jogos, mas quando o jovem fez dezoito anos e ganhou um carro, passou a freqüentar todos. Um belo dia, teve a chance de assistir sua primeira final no estádio: Corinthians x São Paulo.
Depois de torcer na arquibancada e assistir seu time ser campeão paulista contra o rival elitista, fez questão de celebrar ao lado do povo, comendo sanduíche de pernil e tomando uma cerveja nas barraquinhas próximas ao estádio.
A certa altura, todos iriam para a Av. Paulista comemorar a vitória. Mauricio Junior desligou-se discretamente para ir até seu carro. Tinha vergonha de mostrar que dirigia um Golf para os outros corintianos e saiu de fininho. Estacionava sempre muito longe do estádio e, enquanto caminhava, sentia-se como se nem tivesse ido de carro. Fazia parte da ilusória sensação de pertencer ao povo.
Quando ia entrando em seu carro, foi abordado por dois rapazes armados. Mauricinho se arrependeu de já ter tirado sua camiseta do Corinthians (por ser um cara da paz, evitava vestir a camisa do time para não entrar em confusão). Talvez, se os assaltantes tivessem visto que ele era corintiano, não o teriam abordado.
Forçaram-no a abrir a porta e entraram no carro, com o revólver em sua cabeça. Depois, fizeram-no ir a um caixa eletrônico e rasparam sua conta. Calmo, Mauricio Junior quis dar um jeito de mostrar aos assaltantes que era corintiano também, e começou a assobiar baixinho o hino do Corinthians. Para seu azar, porém, os assaltantes eram São Paulinos.
- Corintiano fela da puta! – disse revoltado um deles – Tá tirano com minha cara, é, palhaço?
- Vocês não são corintianos? – perguntou surpreso.
Tomou uma coronhada na boca que lhe cortou os lábios e quebrou um dente.
- Agora tu vai aprender a não ganhar mais do meu time!
Fizeram-no parar o carro num terreno baldio. Ele desceu, tomou uma pancada na nuca e caiu de quatro. Foi currado pelos dois rapazes. Mas, enquanto era penetrado, seu pensamento voava longe. O fato de existirem pobres são-paulinos era para ele uma saborosa novidade antropológica. Ser corintiano então, não era mais suficiente para se misturar ao povão. Teria ele que torcer por todos os times? O que fazer para esquecer o peso de sua riqueza?
A resposta para essa indagação profunda veio a jato, quando um dos rapazes atingiu o orgasmo. Era isso! Essa era a grande comunhão, transcendental, intensa, verdadeira. Torcer e ser igual aos pobres era pouco perto da plenitude de dar prazer a quem precisa.
Ficou lá jogado enquanto eles entravam em seu Golf e partiam. As perdas materiais não lhe fariam falta alguma se comparadas aos ganhos espirituais daquela curra epifânica. O sorriso no rosto dos pobres são-paulinos deu-lhe uma grande sensação de poder. Sentiu-se fazendo sua pequena parte para melhorar o mundo.
A partir daquele dia, onde houvesse pobres e derrotados de qualquer time, lá estaria Mauricio Junior, o torcedor solidário. Se todos consolassem como ele, hoje certamente a paz reinaria nos estádios.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Jorge


Otávio, um promissor estudante de direito, conheceu a descolada e loira Sabrina em uma festa da faculdade. A garota, estudante de moda, sabia chamar atenção através de seu visual, e conquistou o jovem com um breve e preciso olhar. O papo fluiu, e com a juvenil disponibilidade para o amor, em um beijo estavam apaixonadíssimos.
No entanto, apesar de loira, Sabrina não foi pra cama com Otavio naquela noite. Por um lado, isso o frustrou. Por outro, como todo aspirante a advogado, ele era conservador, e considerou aquilo um sinal de boa moça pra casar. Resolveu esperar o tempo que fosse.
Não foi muito. Na noite da primeira vez, Sabrina fez questão de manter as luzes apagadas. “Garota de respeito” pensou orgulhoso, torcendo para ela ser virgem. Não era. Porém, seu desempenho monumental na cama a redimiu. Seus movimentos delicados e agressivos, lentos e rápidos na medida justa e nos momentos precisos, levaram-lhes a atingir o orgasmo quase simultaneamente. Tal afinidade só podia ser destino. Dormiram de conchinha.
Na manhã seguinte, Otavio acordou primeiro e ficou observando cada detalhe do divino corpo de Sabrina. Levantou cuidadoso o lençol que a cobria. Era a primeira vez que via aquele corpo na luz, completamente nu. O pescoço, os ombros, as costas, a bunda, as coxas... Uma das coxas tinha uma tatuagem, alguma palavra. Aproximou-se para ler. “Jorge”!
Levantou-se correndo e vomitou no banheiro. Sua convulsão na privada acordou Sabrina, que se embrulhou nos lençóis e foi socorrer seu amor.
- Não percebi que você tinha bebido tanto ontem... Tá tudo bem?
- Não bebi. Deve ter sido alguma coisa que eu comi... – respondeu já escovando os dentes.
Sabrina baixou a cabeça, constrangida. Nesse momento, Otavio a olhou. Ela estava absolutamente linda embrulhada naquele lençol. Antes da trágica descoberta, desacostumado a associar tesão e amor, fora profundamente enfeitiçado por aquela loira. Agora, não tinha mais volta. Por maior que fosse o ciúme que estava sentindo, já não sabia mais como viver sem ela. Teve que enfrentar:
- Quem é Jorge?
Sabrina congelou. Percebeu que ele tinha visto a tatuagem que tanto tentara esconder. Até então, mesmo perdidamente apaixonada, mantivera a consciência do jogo da sedução e da necessidade de prender o homem antes que ele visse a manifestação física de seu primeiro amor. Naquele momento, porém, só restava abrir o jogo. E foi direta:
- Jorge foi um erro em minha vida. Assim como essa tatuagem. Meu primeiro namorado. Eu estava cega, fiz a tatuagem pra ele. Quando ele viu, se desesperou, achou que eu estava querendo casar e me largou. Sofri muito... mas passou! Todo mundo já teve seus amores e suas histórias. A diferença é que eu fiquei com essa herança maldita de um babaca que não faz parte da minha vida há mais de três anos. Hoje, é você que eu amo. Eu só quero você!
Racionalmente, Otávio compreendeu. A sinceridade da paixão de Sabrina e de sua explicação o obrigava a aceitar o fato e levar a relação adiante. Foi o que fez.
E, de fato, os bons momentos que viveram juntos a partir dali não permitiam qualquer arrependimento. Perder o grande amor da vida por um ciúme bobo teria sido um grande erro. Otávio e Sabrina eram um casal especial, iluminado. Viviam uma paixão radioativa, que contagiava as pessoas a volta. Quem ficava perto deles queria se apaixonar também.

Passados alguns meses de intensa felicidade, o fantasma da tatuagem assombrou novamente. O casal foi convidado a passar um feriado na praia com uma grande turma, na casa de um dos amigos de Otávio. Inocentes, aceitaram.
Sabrina tinha sempre muito cuidada com sua tatuagem. Por mais que o namorado já tivesse aceito o fato, sabia que não era bom lembrá-lo da existência daquilo. Na praia, porém, não havia como esconder. Quando ela tirou a canga para dar um pulo no mar, a tatuagem gritou em sua coxa. E todos os amigos de Otávio conheceram “Jorge”.
Ninguém comentou nada, mas o silêncio falou por todos. A viagem continuou: as cervejas, caipirinhas e banhos de mar chegaram a trazer a ilusão de contentamento. Mas, de volta a rotina, a verdade é que a vida de Otávio tornara-se um pesadelo.
A fofoca da tatuagem espalhou-se rapidamente. Otávio sentiu isso pela forma piedosa com que todos passaram a olhar pra ele. Qualquer amigo, mesmo os que não tinham estado na viagem, passavam-lhe essa mesma impressão.
O auge foi quando o pai de Otávio, num almoço de família em que a namorada estava presente, o chamou num canto e contou que chegara a seus ouvidos que Sabrina tinha um amante chamado Jorge. O jovem desesperou-se. Por mais que amasse a garota, não via mais futuro numa relação que o levaria a ser visto para sempre como um grande corno. Resolveu terminar tudo.
- Mas eu te amo! E sei que você me ama! Não podemos abrir mão de nossa relação só pelo que os outros pensam! Por favor, vamos ficar juntos. Eu te amo mais do que tudo!!! – Sabrina chorava, indignada.
- Eu sei que você me ama. Mas o mundo inteiro acha que você só ama o Jorge. Porque o amor que você teve por ele tem uma prova concreta, estampada em sua coxa. Cansei de ser visto como um corno. – dizia Otávio, tentando parecer firme.
De repente, Sabrina teve uma luz. E prometeu:
- Eu posso dar uma prova concreta de nosso amor, maior que qualquer prova de amor que já existiu.
- Não sei...
- Me dê uma chance, só uma chance! – chacoalhou-o, desesperada.
Otavio deu.

Poucos meses depois, Otavio está de pé no altar de uma Igreja, vestindo orgulhoso seu fraque, ao lado de seus pais e padrinhos, a espera de sua noiva. Soa a marcha nupcial. Entra Sabrina, conduzida com a ajuda de seu pai, segurando em uma mão um buquê, em outra uma muleta. Ela não tem mais uma das pernas. Foi enterrada com “Jorge”.

domingo, 15 de julho de 2007

O Torcedor



Marcão era um púbere completo, com direito a todas as piores características comuns a alguém de sua idade: espinhas, voz desafinada, jeito desengonçado de quem cresceu mais do que a coordenação motora poderia acompanhar, e um crescente tesão ao qual sua pífia experiência de vida só permitia dar vazão através da solitária masturbação.
Filho de um sujeito pacato, nunca fora levado a um jogo de futebol. O pai era um santista não muito apaixonado da fase pós-Pelé, e mal acompanhava os jogos pela TV. Um dia, porém, teve a oportunidade de conhecer o mundo do futebol com um amigo corintiano.
Moleques, quiseram logo se meter no meio da torcida uniformizada, onde a gritaria contagiava mais. No meio da massa, Marcão foi feliz como nunca. Gritou, pulou, cantou, ouvindo sua voz amplificada aos milhares, poderosa. Tanto fazia quem ele era, se tinha espinhas na cara ou uma vida irrelevante. Ali Marcão era o Corinthians.
A certa altura, o juiz marcou um pênalti contra o Corinthians. Sem nem pensar, Marcão xingou o juiz com todos os palavrões que conhecia. E seu ódio não era reprimido. Pelo contrário, ecoava pelo estádio, junto com a indignação de todos, aumentando cada vez mais. Quando o goleiro pegou o pênalti, a torcida explodiu. Ódio virou gozo, vibração. No campo, o time se contaminou e logo fez um, dois, três, quatro. Foi uma vitória marcante para o time do Corinthians, e um primeiro jogo inesquecível para o tímido Marcão.
No dia seguinte, no colégio, fez questão de ir uniformizado. Não precisava mais ficar calado porque tinha um assunto interminável: o futebol. Já completamente corintiano, xingou palmeirenses e são paulinos, peitou quem o xingava de volta. Pela primeira vez, seu tamanho desproporcional era uma vantagem. A garotas da classe, porém, o continuavam olhando com desprezo. Mas torcedor que é torcedor não precisa de mulher. Seu coração já tinha dono: o Corinthians.

Com o passar dos anos, entre derrotas, vitórias, humilhações e títulos, Marcão se tornava mais e mais corintiano. Mas percebia que pessoas a sua volta mudavam. Seus amigos amadureciam, pensavam em mulheres, não iam mais a todos os jogos. Mesmo assim, continuou firme. Em sua vida, o futebol era insubstituível, os amigos não. Trocou de turma. Era no estádio que sentia as mais intensas emoções, protagonizava os mais nobres sentimentos de coragem, fé, amor ao time. Cresceu na uniformizada, era respeitado pelos companheiros e requisitado nos momentos de pancadaria. Sentia orgulho por cada palmeirense que arregaçara na porrada.

Mas foi comendo um sanduíche de pernil antes de um jogo que Marcão sentiu que, mesmo entre os seus, sua vida não seria simples. Num dado momento, todos começaram a falar de mulher. Marcão tentou mudar o assunto, mas não conseguiu, e logo sua virgindade veio a público. Tentou mentir, mas era tarde. Em pouco tempo, todo o pessoal da uniformizada tirava sarro de sua cara. Chegou a ser chamado de São Paulino. Foi quando percebeu que teria que fazer sexo.
Sozinho, partiu depois do jogo para um puteiro próximo ao estádio. Pegou a mais barata e levou-a para um quarto imundo que lá havia. A moça vestiu nele uma camisinha, acariciou-o, mas nada do dito cujo subir. Marcão quis enfiar mesmo assim, ver se pegava no tranco. Mas não pegou. Culpou a camisinha, arrancou-a fora. A princípio, a prostituta se negou a ser penetrada. Mas, após uma certeira bofetada que a fez desmaiar, o torcedor continuou. Mesmo assim, não conseguiu. Saiu sem pagar e foi pra casa preocupado, mais virgem do que nunca.
Obviamente, para os amigos da uniformizada, mentiu sobre sua performance no puteiro e narrou orgulhoso a bofetada que dera na prostituta quando ela se negara a dar a segunda. Todos o parabenizaram com orgulho.
No jogo, um clássico lotado, final de campeonato, a torcida pulava como nunca, espremida. Mas para Marcão, a sensação não era de sufoco, e sim de um crescente prazer. Quanto mais espremido, mais prazeroso. Eram corpos quentes num movimento harmônico, roçando-se mutuamente. E Marcão explodiu num gozo contido apenas por sua cueca, gritando do fundo da alma:
-Timããããããããããããoooooooooooouuuuughhhhhhh!
O grito deu efeito. No mesmo instante, um zagueiro corintiano empurrado por uma força sobrenatural chutou a bola de uma distância improvável e marcou um golaço. O gol do título.
Enquanto o time carregou o zagueiro, a torcida uniformizada carregou Marcão. Todos tinham ouvido seu grito apaixonado. O verdadeiro herói do titulo fora ele.
Mas Marcão não queria ser carregado. Não gostava de estar só, ter destaque. Gostava de fazer parte de algo maior. E, aos gritos, contou o segredo de sua força.
Enojados, os torcedores o largaram no chão e a idolatria se transformou em ódio. Começaram a chutar, socar, pisar. Não havia defesa. Mas Marcão não sentia dor. Estava sendo destroçado não por um, mas pela massa.
Quando os torcedores pararam, não havia mais Marcão. Seus restos tinham se evaporado miticamente.

No campeonato seguinte, o Corinthians, que começara como grande favorito, estava ameaçado de rebaixamento. O time era o mesmo, mas parecia encantado. Não conseguia vencer. Torcedores, sem sucesso, faziam promessas para todos os santos. Um dia, o capitão do time, representando todos os colegas de grupo, intimou a torcida: “Porra!”
Por mais inconsciente, o recado foi certeiro. Desde a vibração mágica da final do campeonato passado, a torcida não passava a mesma emoção para o time.
Nessa noite, a uniformizada teve uma reunião de cúpula. Sabiam que tinham que vibrar como nunca para o time permanecer na primeira divisão. E resolveram espalhar o segredo de Marcão.
Quando o jogo começou, todos se amontoaram e começaram a pular e gritar. O nojo inicial foi substituído por um inevitável prazer. E o orgasmo veio coletivo, em massa.
No mesmo instante, o gol. E o Corinthians desencantou. Foi uma goleada, que resgatou a dignidade da nação corintiana. A partir dali, em todos os jogos a torcida usava o segredo de Marcão. Foi uma fase áurea.
Mas por algum descuido, o segredo de tanta paixão vazou, se espalhou entre outras torcidas, que, no desespero de conter a hegemonia corintiana, resolveram usar a mesma tática. E deu certo. Aos poucos, os campeonatos foram se reequilibrando.
Hoje em dia, não há um jogo em que amontoados torcedores não se rocem e gozem juntos por seu time. Não é a toa a superioridade do futebol brasileiro.
Por tudo isso, torcedor: vá ao estádio!

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ato Fálico



O casamento de Nogueira e Samantha ia bem. Já durava dois anos e gerara um doce fruto: Nina, um bebê de seis meses. Naquela trágica noite, Nogueira acabara de chegar do tradicional jogo de boliche com os amigos e narrava um episódio qualquer ocorrido com um dos amigos:
-...e daí o Marcão falou “Mano, eu to muito doido pra derrubar esses pinos!”! Puta, a gente deu muita risada e... – continuaria mais uma longa história sobre como seus amigos são legais e engraçados, quando foi interrompido pela esposa.
- ...pinto... – disse Carol pra dentro, sem pensar, enquanto amamentava Nina.
- O que?
- O que o que? – estranhou Carol ter dito algo.
- Vc disse pinto! – exclamou Nogueira, já indignado com a ausência de justificativa.
- Fala baixo, Nogueira! Não diga pinto perto da Nina!
- Mas foi você quem disse!!!
- Disse? Nossa, nem percebi, deve ter sido um ato falho, sei lá... Onde é que eu tava com a cabeça, que loucura! – Deu um sorriso para a filha e beijou sua testa – Desculpe querida!
Onde é que Samantha estava com a cabeça era exatamente o que Nogueira não conseguia parar de imaginar. E sua cruel criatividade imaginara os piores pensamentos para sua esposa.
Preferiu calar e reprimir seu ciúme com medo de que quanto mais falasse em pinto, mais sua mulher se lembraria do pinto que a inspirara aquele ato falho. Ato falho! Como ela tinha a cara de pau de pensar nisso enquanto amamentava sua própria filha? Imagine o que estava sendo plantado no inconsciente da criança, através daquele leite contaminado de desejos. De cabeça quente, foi deitar.

Na cama, depois de botar Nina para dormir, Samantha chegou animada, e beijou Nogueira na boca. Depois, foi beijando seu peito moderadamente cabeludo e descendo até o umbigo, onde se insinuou disposta a dar-lhe prazer oral. Ele deixou, mas em seu pensamento, continuava atormentado.
O casal já tinha feito sexo em outras várias oportunidades. Provavelmente Samantha já seduzira seu marido daquela mesmíssima maneira outras vezes (a vida de um casal é fatalmente repetitiva). Mas, naquela noite, cada movimento, cada atitude que ela tomava eram assustadoramente suspeitas.
O golpe fatal foi o gemido profundo que ela soltou na primeira penetração de Nogueira. Por mais agradável que estivesse lá dentro, o prazer da esposa lhe soava como uma agressão. E ele brochou no mesmo instante.
- O que foi, meu bem? – perguntou Samantha, com lambidinhas na orelha do marido, na esperança de reerguer sua auto-estima e seguir até o fim.
Calado, Nogueira simplesmente virou para o lado e dormiu. Ou melhor: fingiu dormir, porque apesar dos olhos fechados, o sono não veio.
Obcecado, ficou atento à respiração da esposa para ouvir se ela se masturbava enquanto ele dormia. Qualquer respiração mais funda era motivo para ele abrir uma fresta de seus olhos e observá-la. Mas Samantha dormia sinceramente.
Alta madrugada, ela levantou-se para ir ao banheiro e fechou a porta. Nogueira não resistiu e a seguiu. Colou os ouvidos na porta mas só ouviu barulho de xixi. Quando a descarga soou, correu e pulou na cama como se jamais tivesse levantado.

Na manhã seguinte, sem ter dormido por um único instante sequer, levantou-se cedíssimo para ir trabalhar, com cuidado para não acordar a mulher e não ter que ouvir sua voz insuportável. Quem sabe o trabalho o fizesse esquecer o pesadelo que fora sua última noite.
Foi até o quarto da filha se despedir, mas quando chegou perto de sua testa para dar um beijo, não conseguiu. Estava com ódio dela também. De alguma forma, era cúmplice da mãe. Nem os meros seis meses de idade inocentavam o inevitável fato dela ser mulher.

Tomou café da manhã numa padaria em frente a sua casa. Pão com manteiga, café com leite e, para finalizar, uma boa dose de cachaça, virada em um único gole. Foi inspirador. Pediu outra. Virou novamente. Sentiu os olhos arderem e o sangue ferver, e partiu para o trabalho.
Em alta velocidade guiando seu carro pelas ruas, ligou uma música qualquer no último volume. Longe do lar, entusiasmou-se com a liberdade de estar longe de sua família. Imaginou-se no puteiro com os amigos no fim do expediente. Sentia-se aliviado, não pensava mais no pinto de sua mulher.
No escritório, a primeira pessoa que viu foi sua secretária. Nunca sentira qualquer tesão por ela, que tinha o rosto coberto de espinhas e era um pouco gorda. Mas botou na cabeça que a comeria em algum motel no horário de almoço. Sentiu o volume crescendo dentro de sua cueca e fez questão de não esconder.
A secretária, constrangida, o lembrou da importantíssima reunião que teria com a chefia e alguns clientes da empresa.
Depois de uma piscadinha, Nogueira partiu para a reunião. Foi o primeiro a chegar e ficou girando em uma das cadeiras em volta da imensa mesa redonda. Estava em estado de êxtase, sentia-se realizado, vingado, livre. De tanto girar, porém, ficou tonto, enjoado, e o ato falho de sua mulher voltou a ocupar seus pensamentos como um tijolo pesando toneladas.
Aos poucos, a sala estava cheia de homens conversando sobre assuntos seríssimos da empresa. Ao olhar para aqueles homens, se pôs a imaginar se não seria de algum deles o pinto em que sua mulher estava pensando. Imaginou-os de calças arriadas, rindo de sua cara de corno. Olhou no olho de cada um e tentava procurar qualquer indício de culpa em alguém. Todos eram suspeitos. Lembrou dos amigos do boliche, dos amigos da faculdade, dos amigos do colégio, de todos os homens do mundo. Talvez todos já tivessem provado as delícias que sua esposa tinha a oferecer.
- Nogueira, tudo bem com você? – perguntou Dr. Barreto, o chefe, notando seu estranho comportamento.
O atormentado homem abriu a boca para responder, mas de lá saiu apenas um podre jato de vômito, contendo toda sua noite mal dormida. Isso interrompeu a reunião e lhe garantiu uma folga até o dia seguinte.
Em casa, com uma tremenda ressaca física e moral, foi tratado por sua esposa com chá, torradas e cama. A certa altura, entre gemidos de mal estar, balbuciou:
- ... amor...
- O que você disse, Nogueira? – perguntou a esposa, com um princípio de felicidade.
- Eu? Disse alguma coisa? – estranhou Nogueira, sinceramente surpreso e com a cabeça explodindo. – Deve ter sido um ato falho.
Virou-se para o lado e dormiu.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

A última mulher

Ana Maria era uma mulher atormentada por suas próprias estatísticas. Todos os homens com quem se relacionara em sua vida tinham se tornado homossexuais. Não havia sequer uma exceção a se apegar. Pra piorar, um agravante dava ares de tragédia a esses números: ela fora a última mulher de todos. A maioria tivera outros relacionamentos heterossexuais antes dela. Depois, ninguém. Apenas homens.
Um otimista diagnosticaria simplesmente como um problema na escolha. Talvez, a busca por alguém mais sensível a tornasse uma vítima constante de homens que saíam do armário. Mas Ana Maria não conseguia enxergar sua vida através desse prisma benevolente. Já se relacionara com todos os tipos de homens: sensíveis, grosseiros, gordos, magros, fiéis e até os piores canalhas. Não havia um que permanecesse Homem.
Na cama, ela tentava de tudo. Desde a primeira noite, tinha uma dedicação brutal a seus parceiros. Seu próprio prazer era indiferente. Como um trator, buscava sempre a perfeição em suas chupetas, punhetas e chaves de bocetas. Cada vez fazia mais, mais e mais, levando os homens a orgasmos inevitáveis. Porém, bastavam algumas semanas para seus relacionamentos terminarem. Outras mais e batata: lá estava seu ex com outro homem.
Quando ouvia amigas chorarem de dor de corno, tinha inveja delas. Tudo que ela queria era um homem macho o suficiente para trair. Sonhava com o dia em que flagraria seu namorado na cama com outra. Mas esse dia nunca chegou.


Ana Maria passou a evitar os finais de semana. Não queria mais saber de sair. Perdera as esperanças de conhecer alguém com quem desse certo. Sexta-feira, quando saía do trabalho, desligava seu celular, tirava seu telefone do gancho e só se conectava ao mundo novamente nas segundas-feiras.
Mas essa rotina de tristeza foi percebida por Poliana, uma observadora colega de escritório:
- O que há com você, menina?
Ana Maria jamais tinha trocado mais de duas palavras com Poliana. Trabalhavam em áreas diferentes da firma. Mesmo assim, ser chamada de menina derreteu seu coração , e começou ali uma relação diferente de todas as que já tivera.
Com Poliana, os assuntos fluíam mais fáceis, os programas eram mais tranqüilos e os sentimentos mais sinceros. A cumplicidade das amigas em pouco tempo transformou-se em amor. E chegou o dia do primeiro beijo.
Poliana levou Ana Maria a um bar GLS que costumava freqüentar. Lá, se abriu, contando que sempre tivera nojo de homens e que soubera desde cedo que só amaria outras mulheres.
A certa altura, um ex-namorado de Ana Maria passou com um homem. Trocaram olhares cumprimentando-se e sentaram-se em uma outra mesa.
- Hoje foi a primeira vez que não senti qualquer rancor ou nojo de um ex-namorado. Agora entendo que o homossexualismo é uma escolha, uma busca por felicidade, jamais uma doença. E, nesse momento, essa é também a minha escolha. – disse Ana Maria, epifânica, aproximando seu rosto de Poliana e a beijando.
Entregue, enfiou fundo sua língua, explorando com paixão esse novo universo. Depois, quis logo pagar a conta e levar seu novo amor para casa. Poliana aconselhou-a a dar um passo de cada vez, mas ela não quis saber, e lá foram ambas para a primeira noite de amor.
Na cama, Ana Maria aplicou em Poliana todas as carícias que gostaria de ter recebido na vida. Deliciou-se com a facilidade que era relacionar-se com alguém do mesmo sexo, como era fácil dar prazer para sua parceira. E levou-a a múltiplos orgasmos.
No dia seguinte no escritório, Ana Maria deu uma caixa de bombons para seu novo amor. Para sua surpresa, porém, Poliana se comportava de forma fria, evitando-a.
- O que há? – perguntou assustada.
- Acho que fomos rápidas demais...
- Não, não fomos! Eu estava preparada! Eu adorei! – tentou rápido contornar a crise.
- Mas eu não. Sei lá, acho que queria apenas uma amiga... Não sei... Prefiro que não sejamos nada além de amigas. – concluiu Poliana com uma crueldade sincera.
Ana Maria não conseguiu mais trabalhar nesse dia. Pediu dispensa para sua chefe e foi para casa, chorar até esgotar suas lágrimas. Depois, como uma Fênix, renasceu das cinzas. Aquele amor não dera certo, mas um novo mundo abrira-se diante de sua janela. Agora que descobrira seu novo lado, dava risada de seus antigos traumas. Voltou a sair aos finais de semana, abriu-se novamente para a vida.
Um belo dia, fazendo compras no shopping, reconheceu Poliana ao longe, em uma mesa de café, sozinha. Foi se aproximando para fazer uma surpresa, mas, antes dela, chegou um homem. Magro, de camisa aberta e peito cabeludo, entregou um buquê de flores para Poliana, que agradeceu com um molhado beijo na boca. Depois, saíram os dois para a fila do cinema.
Ao ver aquilo, Ana Maria congelou. Ficou na mesma posição, de pé, até o fim do dia. Os seguranças só foram perceber na hora de fechar as lojas:
- Senhora? Estamos fechando. A senhora não pode ficar aqui.
Mas Ana Maria permanecia estática, muda, sem mover um músculo e nem piscar os olhos. Os seguranças desistiram de tentar o diálogo e resolveram usar a força. Com dificuldade, carregaram-na até a entrada e lá deixaram-na, plantada no jardim externo.
Foi lá que, como uma estátua, ficou Ana Maria, cravada na mesma posição, com o mesmo olhar trágico, para todo e eterno sempre. A última mulher.

domingo, 17 de junho de 2007

Beleza Interior



Ariel era antes de tudo um justo. Tinha fé na razão e na capacidade da raça humana de superar suas fraquezas animalescas. O que o movia era mudar o mundo. Sentia fome de justiça, desejo de igualdade. Suas necessidades básicas como comida, descanso e sexo eram apenas obstáculos a serem superados. Estava condenado a servir a humanidade para torná-la melhor.
Para atingir seu macro objetivo de mudar o mundo, Ariel fazia questão de ser um exemplo de conduta. Aplicava a igualdade em seu cotidiano: só namorava mulheres feias. Não era justo que as feias não pudessem amar e ser amadas. Para ele, só valia a beleza interior. Sempre acreditou que o verdadeiro amor não se preocupa com as aparências externas e vai muito além das questões do corpo.
Na cama, com suas feias, tinha certeza: fazia Amor, jamais sexo. Gostava especialmente das conversas que vinham depois. Fazia questão de ouvir cada detalhe de sua performance para na próxima vez agradar ainda mais sua amada.
Mas, a harmonia de sua pacata coerência foi tragicamente abalada quando um cheiro forte de perfume penetrou involuntariamente suas narinas. Estava no metrô, acompanhado de uma namorada feia, quando sentiu um poderoso cheiro que arrepiou todos seus pelos. Vinha de uma sueca, assustadoramente linda, tentando decifrar um mapa em um idioma que nitidamente não era o seu.
Por princípio, Ariel odiava perfume. Achava banho uma hipocrisia. Se ela precisava daquilo para conquistar as pessoas é porque não tinha nada melhor para mostrar ao mundo. No entanto, a sueca nitidamente precisava de ajuda e, mesmo desgostoso, sua vocação de herói o fez aproximar-se.
O sorriso de gratidão que ela abriu transpassou os limites do vagão e iluminou todos os túneis subterrâneos da cidade. Seus dentes, seus lábios, seu hálito, tudo excitava profundamente Ariel, que fez questão de ajudar rapidamente e voltar para sua namorada.
O trajeto de metrô nunca foi tão longo. Abraçou forte sua amada, que se animou com o volume roçando-lhe a cintura, pensando que aquilo era pra ela. A sueca o estava fazendo enganar involuntariamente sua namorada. Era a primeira mentira de sua vida. “O que está acontecendo comigo?” torturava-se, febril.
Os três desceram na mesma estação. Não contente com o que já causara, a sueca pediu que eles a indicassem algum banheiro nas proximidades. Ariel e a namorada resolveram conduzi-la a uma lanchonete que conheciam nas redondezas.
Fora do metrô, o dia estava ensolarado, perigosamente quente. Na lanchonete, a namorada aproveitou para comprar uma paçoca, enquanto o gentil Ariel acompanhou a sueca até o banheiro. O estreito corredor por onde passaram no caminho colocou-os a uma proximidade cruel. A beleza de seu pescoço era assustadora, assim como todas as curvas e recheios de seu corpo.
Ela entrou no banheiro feminino e Ariel ficou do lado de fora. Jamais sentira um tesão tão explosivo e incontrolável. Teria sido capaz de se conter não tivesse ouvido um ruído de um harmônico que ressoou por todos seus ossos: o xixi sueco caindo na privada.
Animalesco, entrou no banheiro ofegante, já baixando as calças. Flagrou a sueca parada na posição de aviãozinho sobre uma das privadas. Sentiu o orgasmo vindo só pela apreciação daquela imagem, e apressou-se para cravar-lhe o pau antes que gozasse. A moça não esboçou qualquer reação. Aparentemente, viera ao Brasil preparada para aventuras daquele tipo, e até gostou.
Culpado pela ejaculação precoce, Ariel fez questão de chupá-la. Quando abriu suas pernas e viu seu corpo por dentro, foi iluminado por uma certeza que o transformou pelo resto de seus dias: aquela era a verdadeira beleza interior.

O Homem que Gozava Triste

Como todos os filhos, tudo o que Ricardo queria era ser aceito pelos pais. Mas o pavio curto de Araújo, seu pai, o tornava um garoto tenso, e obcecado pela perfeição.
Cresceu impaciente consigo mesmo, revendo suas posições sempre que contestado, um autêntico democrata. Jamais ficava satisfeito com uma conquista. Havia sempre algo fora do lugar que o incomodava profundamente.
E como todo bom perfeccionista, Ricardo não suportava o comportamento feminino. Mas engolia seu ódio, imaginando que ao comer as moças extravasaria sua raiva. No entanto, isso não acontecia. Não conseguia sentir verdadeiro prazer em uma trepada. Era um eterno insatisfeito. Gozava, é verdade. Mas gozava triste.
Certo dia, em uma mesa com amigos, libertado pelo álcool, Ricardo declarou em alto e bom som seu ódio por todas mulheres que comera. Não se conformava como podiam ser tão estúpidas. Todas vacas, sem exceção. E terrivelmente chatas.
Ricardo ergueu-se até o banheiro. Mijou orgulhoso de suas palavras. Ah, se pudesse ter orgasmos com a felicidade de uma boa mijada. Mas enquanto refletia, na mesa seu destino era traçado com palavras duras. Amélia, moça única na mesa, era definitiva: “Essa coca é fanta.” Seu amigo mal pensava em defendê-lo e ela já sentenciava: “Conheço muitos. Eu corto minha teta como ele é viado.”
Ricardo voltou do banheiro desavisado. Na mesa todos observavam seus movimentos com perversa exatidão. Seus tiques femininos eram tragicamente eloqüentes. Ricardo, sem entender, sentia-se oprimido por seus colegas.
Nessa noite não conseguiu dormir. Rolou na cama de um lado pro outro. Em sua cabeça, apenas pintos: duros, moles, grandes, grossos, finos e circuncisados. Eles sufocavam Ricardo. Jamais sentira algo assim. Tinha nojo dos homens. Não ousava sentir uma barba masculina raspando seu rosto ou um falo macho roçando-lhe o rego. Mas sua imaginação tornou-se indomável.
Na manhã seguinte, olhou seus colegas de escritório com outros olhos. Qualquer camisa minimamente aberta, com pelos a mostra, provocava-lhe sensações que não conseguia conter. Os objetos pareciam adquirir novos significados: canetas, réguas, maçanetas e o possante freio de mão. Mas o pior ainda estava por vir: em seu escritório trabalhava Souza, bicha bem sucedida e máscula, cujo poderoso cargo de chefia o tornava o mais cafajeste dos homossexuais.
E não demorou muito para que Souza farejasse a instabilidade emocional de Ricardo. Intimou-o a um importantíssimo jantar de negócios, em seu apartamento.
Após comerem, enquanto batiam um papo terminando o cafezinho, Souza enfiou a mão entre as coxas do rapaz. Ricardo peidou de susto, mas não teve tempo de evitar o beijo quente que Souza lascou-lhe na boca.
Percebendo o estado atônito de Ricardo, Souza foi delicado como todo canalha sabe ser: “Não precisa dizer nada. Eu sei o que você está sentindo. Já passei por isso. Deixa que eu faço tudo.”.
E foi o que aconteceu: Ricardo foi totalmente envolvido e dominado por Souza, que penetrou seu rabo com o poder de um imperador. Ricardo era trespassado por uma dor insuportável, que rasgava do ânus até sua alma. O jato de sêmen de Souza, seguido por um uivo, arrancou-lhe lágrimas. Dedicado, Souza tentou retribuir o rombo que fizera em Ricardo. Mas seu prazer saiu como um pálido suspiro de adeus, triste.
Não. Dar o cu também não o satisfazia. Mas já era tarde. Os dias se passaram e Ricardo teve que admitir a curra. Agora era bicha, bicha e ponto. Passou a dar para qualquer desinteressado, esperando que um dia algum homem unisse seu gozo à felicidade. Mas era impossível, o sexo era sujo, dolorido, mecânico.
Até o dia em que encontrou Alvarenga, um homem que também gozava burocraticamente. Deu-lhe o cu e nada de um sorriso de seu algoz, que saiu inalterado. Aquilo o iluminou, havia encontrado o nirvana, seus olhos brilhavam, já esquecera de seu ânus arregaçado. Nem foder nem ser fodido. O que valia era a comunhão do gozo triste. E eles gozaram, chorando, tristes para sempre.

O Homem que só Perdoava



Desde a infância, Carlos era um tipo calado. Aprendeu cedo a ouvir cuidadosamente os outros antes de tomar qualquer atitude. Isso o fazia sentir-se longe das imperfeições de sua alma.
E Carlos cresceu dessa forma: calado e superior, compreendendo o mundo a sua volta. Aos 20 anos, já era um responsável estagiário de direito, amigo de todos e com um promissor futuro no escritório. Porém, Carlos era obcecado por neuróticas.
Sim, a primeira coisa que Carlos procurava em uma mulher era o defeito. E quanto maiores e mais espalhafatosos, mais excitado ficava. Sentia uma necessidade devastadora de estar perto de alguém que só fizesse cagada.
Cedo, apaixonou-se por Lucélia, mulher vivida apesar de seus 17 anos, de uma sinceridade com seus sentimentos que a tornava a mais impulsiva das neuróticas.
Após o sexo, Carlos adorava ouvir calado suas crises e angústias, brigas com outras garotas, e depois de horas, desfechar o assunto com uma opinião redentora dos erros da garota. Mas ela sempre errava de novo.
Com alguns meses de namoro, Lucélia passou a sair um pouco mais com as amigas da escola. E inevitavelmente, acabou comida por um colegial. Sincera como só ela, Lucélia resolveu se abrir para o namorado.
Carlos ouviu atento, com certa dor no coração, mas vendo aquela sincera menina-mulher a sua frente, não conseguia condená-la. Era apenas humana, e errava! E em atitude nobre, perdoou sua amada.
Ao completar 18 anos, Lucélia tomou um tremendo porre com seus amigos na saída do colégio. Foram todos pra casa de um deles e o resultado foi uma tremenda orgia, um autêntico “5 a 1” em que Lucélia não ficou com um buraco vazio.
Arregaçada, voltou pra casa pensativa. Por que fizera tudo aquilo? Como pudera ser tão vaca e sujar dessa forma sua relação com o bondoso Carlos. Namorava um santo e só dava desgosto a ele. Sabia que dessa vez ele não aceitaria. Nenhum homem seria capaz de perdoar um 5 a 1 como aquele. Mas Lucélia não convivia com a mentira.
A primeira coisa que fez ao receber a visita de Carlos em sua casa foi virar o rosto. “Não sei se você será capaz de me beijar de novo após o que eu fiz hoje...”. Carlos, com flores e presentes na mão, entrou e ouviu o relato mais minucioso de um bacanal que alguém jamais fizera. Lucélia foi cruelmente detalhista, mas sincera.
Carlos ouviu como nunca. Quanto mais detalhes ela contava, mais ele queria saber. Era seco, mas deixava Lucélia contar isso deitada em seu colo. Ao final do relato, ela chorou e gritou, estava totalmente enojada consigo mesma.
Clerical, Carlos deu um beijo na testa da amada e disse:
- Se você se arrepende, eu a perdôo.
Lucélia emudeceu. Mal conseguia respirar. Largou Carlos e andou ao redor de seu quarto, desesperada.
- Eu não mereço, eu não mereço!!! – começou a gritar.
Carlos foi definitivo:
- Claro que merece meu amor, merece até mais. Você não escolheu nascer mulher.
Eternizada, Lucélia agarrou o namorado com paixão e fez tudo o que uma mulher sabe fazer, inclusive engravidar. Durante a concepção, vociferava:
- Que nasça homem!