domingo, 15 de julho de 2007

O Torcedor



Marcão era um púbere completo, com direito a todas as piores características comuns a alguém de sua idade: espinhas, voz desafinada, jeito desengonçado de quem cresceu mais do que a coordenação motora poderia acompanhar, e um crescente tesão ao qual sua pífia experiência de vida só permitia dar vazão através da solitária masturbação.
Filho de um sujeito pacato, nunca fora levado a um jogo de futebol. O pai era um santista não muito apaixonado da fase pós-Pelé, e mal acompanhava os jogos pela TV. Um dia, porém, teve a oportunidade de conhecer o mundo do futebol com um amigo corintiano.
Moleques, quiseram logo se meter no meio da torcida uniformizada, onde a gritaria contagiava mais. No meio da massa, Marcão foi feliz como nunca. Gritou, pulou, cantou, ouvindo sua voz amplificada aos milhares, poderosa. Tanto fazia quem ele era, se tinha espinhas na cara ou uma vida irrelevante. Ali Marcão era o Corinthians.
A certa altura, o juiz marcou um pênalti contra o Corinthians. Sem nem pensar, Marcão xingou o juiz com todos os palavrões que conhecia. E seu ódio não era reprimido. Pelo contrário, ecoava pelo estádio, junto com a indignação de todos, aumentando cada vez mais. Quando o goleiro pegou o pênalti, a torcida explodiu. Ódio virou gozo, vibração. No campo, o time se contaminou e logo fez um, dois, três, quatro. Foi uma vitória marcante para o time do Corinthians, e um primeiro jogo inesquecível para o tímido Marcão.
No dia seguinte, no colégio, fez questão de ir uniformizado. Não precisava mais ficar calado porque tinha um assunto interminável: o futebol. Já completamente corintiano, xingou palmeirenses e são paulinos, peitou quem o xingava de volta. Pela primeira vez, seu tamanho desproporcional era uma vantagem. A garotas da classe, porém, o continuavam olhando com desprezo. Mas torcedor que é torcedor não precisa de mulher. Seu coração já tinha dono: o Corinthians.

Com o passar dos anos, entre derrotas, vitórias, humilhações e títulos, Marcão se tornava mais e mais corintiano. Mas percebia que pessoas a sua volta mudavam. Seus amigos amadureciam, pensavam em mulheres, não iam mais a todos os jogos. Mesmo assim, continuou firme. Em sua vida, o futebol era insubstituível, os amigos não. Trocou de turma. Era no estádio que sentia as mais intensas emoções, protagonizava os mais nobres sentimentos de coragem, fé, amor ao time. Cresceu na uniformizada, era respeitado pelos companheiros e requisitado nos momentos de pancadaria. Sentia orgulho por cada palmeirense que arregaçara na porrada.

Mas foi comendo um sanduíche de pernil antes de um jogo que Marcão sentiu que, mesmo entre os seus, sua vida não seria simples. Num dado momento, todos começaram a falar de mulher. Marcão tentou mudar o assunto, mas não conseguiu, e logo sua virgindade veio a público. Tentou mentir, mas era tarde. Em pouco tempo, todo o pessoal da uniformizada tirava sarro de sua cara. Chegou a ser chamado de São Paulino. Foi quando percebeu que teria que fazer sexo.
Sozinho, partiu depois do jogo para um puteiro próximo ao estádio. Pegou a mais barata e levou-a para um quarto imundo que lá havia. A moça vestiu nele uma camisinha, acariciou-o, mas nada do dito cujo subir. Marcão quis enfiar mesmo assim, ver se pegava no tranco. Mas não pegou. Culpou a camisinha, arrancou-a fora. A princípio, a prostituta se negou a ser penetrada. Mas, após uma certeira bofetada que a fez desmaiar, o torcedor continuou. Mesmo assim, não conseguiu. Saiu sem pagar e foi pra casa preocupado, mais virgem do que nunca.
Obviamente, para os amigos da uniformizada, mentiu sobre sua performance no puteiro e narrou orgulhoso a bofetada que dera na prostituta quando ela se negara a dar a segunda. Todos o parabenizaram com orgulho.
No jogo, um clássico lotado, final de campeonato, a torcida pulava como nunca, espremida. Mas para Marcão, a sensação não era de sufoco, e sim de um crescente prazer. Quanto mais espremido, mais prazeroso. Eram corpos quentes num movimento harmônico, roçando-se mutuamente. E Marcão explodiu num gozo contido apenas por sua cueca, gritando do fundo da alma:
-Timããããããããããããoooooooooooouuuuughhhhhhh!
O grito deu efeito. No mesmo instante, um zagueiro corintiano empurrado por uma força sobrenatural chutou a bola de uma distância improvável e marcou um golaço. O gol do título.
Enquanto o time carregou o zagueiro, a torcida uniformizada carregou Marcão. Todos tinham ouvido seu grito apaixonado. O verdadeiro herói do titulo fora ele.
Mas Marcão não queria ser carregado. Não gostava de estar só, ter destaque. Gostava de fazer parte de algo maior. E, aos gritos, contou o segredo de sua força.
Enojados, os torcedores o largaram no chão e a idolatria se transformou em ódio. Começaram a chutar, socar, pisar. Não havia defesa. Mas Marcão não sentia dor. Estava sendo destroçado não por um, mas pela massa.
Quando os torcedores pararam, não havia mais Marcão. Seus restos tinham se evaporado miticamente.

No campeonato seguinte, o Corinthians, que começara como grande favorito, estava ameaçado de rebaixamento. O time era o mesmo, mas parecia encantado. Não conseguia vencer. Torcedores, sem sucesso, faziam promessas para todos os santos. Um dia, o capitão do time, representando todos os colegas de grupo, intimou a torcida: “Porra!”
Por mais inconsciente, o recado foi certeiro. Desde a vibração mágica da final do campeonato passado, a torcida não passava a mesma emoção para o time.
Nessa noite, a uniformizada teve uma reunião de cúpula. Sabiam que tinham que vibrar como nunca para o time permanecer na primeira divisão. E resolveram espalhar o segredo de Marcão.
Quando o jogo começou, todos se amontoaram e começaram a pular e gritar. O nojo inicial foi substituído por um inevitável prazer. E o orgasmo veio coletivo, em massa.
No mesmo instante, o gol. E o Corinthians desencantou. Foi uma goleada, que resgatou a dignidade da nação corintiana. A partir dali, em todos os jogos a torcida usava o segredo de Marcão. Foi uma fase áurea.
Mas por algum descuido, o segredo de tanta paixão vazou, se espalhou entre outras torcidas, que, no desespero de conter a hegemonia corintiana, resolveram usar a mesma tática. E deu certo. Aos poucos, os campeonatos foram se reequilibrando.
Hoje em dia, não há um jogo em que amontoados torcedores não se rocem e gozem juntos por seu time. Não é a toa a superioridade do futebol brasileiro.
Por tudo isso, torcedor: vá ao estádio!

3 comentários:

pensamentos disse...

fantastico! sublime! genial! agora sim consigo enxergar o sexo, futebol e cachaça! Waldemar mais uma vez abrilhantou o mundo, com a sua forma de descrever a realidade!
Viva!
Waldemar melhora a cada dia que passa

eletrobeat disse...

perfeito, mas ainda prefiro só sexo com cachaça...hahaha.


xxx

Mariá disse...

esse é meu favorito.

...é o senhor tem dois blogs. vai ver, já já tá fazendo o terceiro. é compulsivo.

o legal de ter vários blogs é que a gente perde mais tempo.