
Machado era um marido orgulhoso. Apaixonado por sua esposa, sabia que o amor era recíproco. Mais ainda: tinha certeza que ela, apesar de mulher, era fiel.
E, de fato, Milena era um exemplo de conduta. Belíssima, sensual e afetuosa, poderia ter todos os homens a seus pés. Mas escolhia não. Seu homem era um só: Machado. E com ele fazia questão de cultivar um relacionamento duradouro, edificado sobre a inabalável rocha da fidelidade.
Machado e Milena chegavam a ser motivo de inveja para os outros casais. Sempre apaixonados, as raras desavenças cotidianas que surgiam em público (jamais por ciúme) logo se transformavam em manifestações públicas de amor eterno, com carícias obscenas não pela sexualidade, mas pela felicidade explícita.
Quem mais invejava Milena era Cornélia, sua melhor amiga. Enquanto o casal vivia feliz há anos, ela não conseguia se manter namorando um mesmo homem.
Naquele dia, depois de perder mais um namorado, Cornélia foi chorar as mágoas na casa de Milena. A certa altura, porém, cansada de tanta perfeição, resolveu colocá-la contra a parede:
- Não é possível que você seja tão fiel! Admita pelo menos pra mim, sua melhor amiga, que já traiu alguma vez na vida!
Nessa hora, por trás da porta passava Machado. Não queria bisbilhotar, mas a ênfase da pergunta tornou impossível ele não ficar para ouvir a resposta. E disse Milena, santa:
- Jamais. Juro que sou fiel, não tenho por que mentir pra você, amiga. Fidelidade não é nenhuma tragédia. É uma escolha.
Mesmo já sabendo a resposta, de trás da porta Machado abriu um silencioso e largo sorriso. Sua vontade era arrombar a porta com toda força, mandar Cornélia plantar batatas e encher Milena de beijos. Mas, preferiu não revelar que estava ouvindo escondido. Poderia transmitir insegurança, e isso ele não queria. Considerava a insegurança a faísca inicial do incêndio da traição.
Dentro do quarto, Cornélia desistiu e chorou, desesperada por sua condição feminina:
- Eu não entendo! Não entendo! Como você pode ser tão perfeita? A sua fidelidade é uma sombra em minha vida. Eu te odeio! Não quero mais ser sua amiga! Chega!
- Pare com isso, Cornélia! Eu adoro você... E não sou perfeita. Ninguém é perfeito! – dizia, lamentando o desespero da amiga.
- Você é! Seres humanos comuns sentem desejos por outros seres humanos, mesmo casados.
- E quem disse que eu não sinto desejo por outros homens? – confessou Milena, com sincera naturalidade.
Pausa dramática. O choro de Cornélia e a respiração de Machado atrás da porta congelaram no mesmo instante.
- Desejo? Carnal?
- Claro! Mas eu não deixo que ele me tome. Trato de sublimá-lo. Sempre que sinto desejo por outra pessoa, eu escrevo. Poesias, frases, textos, o que vier na cabeça. E o desejo se transforma em Arte.
Cornélia, surpresa pela resposta e contente pela lição, calou-se e abraçou a amiga, fazendo as pazes. Machado, do lado de fora, afastou-se pensativo.
Apesar de racionalmente satisfeito por ter ainda mais certeza da fidelidade da mulher, seu coração começava a ser corroído pela consciência de que Milena desejava outros homens. Sentia, pela primeira vez, ciúme de sua esposa. Culpou-se por ter ouvido aquilo atrás da porta e tratou de tentar esquecer.
Na mesma noite, o jogo de pôquer com os amigos seria na sua própria casa, e a organização do evento semanal conseguiu-o distrair aos poucos. Quando todos foram chegando, as risadas, a cerveja e o jogo substituíram por completo suas preocupações.
A certa altura, porém, precisou buscar mais aperitivos na cozinha. De passagem pela sala de TV, flagrou Milena escrevendo algo em seu caderninho.
- Quer que eu leve os aperitivos lá na sala? – perguntou a dedicada esposa.
- Não. - respondeu seco, quase bufando. E saiu.
O que ela estaria escrevendo? Pior: qual de seus amigos seria a razão daqueles escritos? Voltou sem os aperitivos para a mesa de pôquer.
- Pô, Machado, cadê o amendoinzinho, meu? – reclamou um.
- Cala a boca, seu gordo! Hoje chega de jogo. Não vai mais ter pôquer na minha casa, vocês são muito folgados, acabam com todo meu amendoim. – afirmou, expulsando os amigos antes mesmo do fim do jogo.
Quando ele entrou na sala de novo, Milena estranhou seu comportamento:
- O que houve, meu amor?
“Cínica!” pensava Machado, mas dizendo de fato:
- Não estou me sentindo bem. Vou dormir.
- Então eu vou também. – respondeu Milena, prestativa.
- Não, continue aí escrevendo o que você estava escrevendo. – disse, quase sem conseguir esconder o desprezo pelo caderninho.
- Isso não é nada. Passou a vontade de escrever. Eu...
Indignado, Machado saiu andando e deitou-se na cama sem ao menos dar boa noite.
Sonhou que fuçava na bolsa de Milena em busca de seu caderninho. De repente, do teto, começava uma chuva de caderninhos, blocos de rascunho, guardanapos, qualquer coisa onde se pudesse escrever. As roupas da esposa no armário tinham bolsos cheios de papéis, não parava de aparecer mais. No banheiro, sentado na privada, Machado abria o rolo de papel higiênico e lia poesias por toda sua extensão.
Acordou no meio da noite, desesperado. Milena dormia como um anjo malvado. Levantou-se e foi lavar o rosto. Precisava tomar alguma atitude. E tomou.
Em silêncio, destruiu o caderninho de sua esposa. Depois, foi atrás de todos os papéis, canetas e lápis da casa e deu um sumiço em tudo. Feito tudo isso, voltou a dormir como se nada tivesse acontecido.
De manhã, quando acordou, sua esposa não estava mais na cama. Caminhou até a sala e ela estava no computador, digitando alguma coisa.
- Milena? Por que acordou tão cedo? Hoje é domingo!
- É que eu tive um sonho tão engraçado que eu resolvi escrever algumas coisas. Como não achei nenhum papel, resolvi digitar. Estranho que não tinha pap... – ia completar, mas foi interrompida pelo incontrolável Machado, que trucidou o computador bem na sua frente.
- Tá satisfeita agora, hein? Vagabunda! – disse “vagabunda” de boca cheia, e fez questão de repetir – Vagabunda!!!
- Mas o que foi que eu fiz? – desesperou-se a fiel esposa, estupefata.
Consciente da irracionalidade de seu ciúme, mas incapaz de conter o patético sentimento, Machado desabou em prantos, e implorou:
- Você pode fazer o que bem entender da sua vida. Pode até me trair se quiser. Eu só peço uma coisa, uma só: nunca mais escreva nada... Absolutamente nada!











