
O casamento de Nogueira e Samantha ia bem. Já durava dois anos e gerara um doce fruto: Nina, um bebê de seis meses. Naquela trágica noite, Nogueira acabara de chegar do tradicional jogo de boliche com os amigos e narrava um episódio qualquer ocorrido com um dos amigos:
-...e daí o Marcão falou “Mano, eu to muito doido pra derrubar esses pinos!”! Puta, a gente deu muita risada e... – continuaria mais uma longa história sobre como seus amigos são legais e engraçados, quando foi interrompido pela esposa.
- ...pinto... – disse Carol pra dentro, sem pensar, enquanto amamentava Nina.
- O que?
- O que o que? – estranhou Carol ter dito algo.
- Vc disse pinto! – exclamou Nogueira, já indignado com a ausência de justificativa.
- Fala baixo, Nogueira! Não diga pinto perto da Nina!
- Mas foi você quem disse!!!
- Disse? Nossa, nem percebi, deve ter sido um ato falho, sei lá... Onde é que eu tava com a cabeça, que loucura! – Deu um sorriso para a filha e beijou sua testa – Desculpe querida!
Onde é que Samantha estava com a cabeça era exatamente o que Nogueira não conseguia parar de imaginar. E sua cruel criatividade imaginara os piores pensamentos para sua esposa.
Preferiu calar e reprimir seu ciúme com medo de que quanto mais falasse em pinto, mais sua mulher se lembraria do pinto que a inspirara aquele ato falho. Ato falho! Como ela tinha a cara de pau de pensar nisso enquanto amamentava sua própria filha? Imagine o que estava sendo plantado no inconsciente da criança, através daquele leite contaminado de desejos. De cabeça quente, foi deitar.
Na cama, depois de botar Nina para dormir, Samantha chegou animada, e beijou Nogueira na boca. Depois, foi beijando seu peito moderadamente cabeludo e descendo até o umbigo, onde se insinuou disposta a dar-lhe prazer oral. Ele deixou, mas em seu pensamento, continuava atormentado.
O casal já tinha feito sexo em outras várias oportunidades. Provavelmente Samantha já seduzira seu marido daquela mesmíssima maneira outras vezes (a vida de um casal é fatalmente repetitiva). Mas, naquela noite, cada movimento, cada atitude que ela tomava eram assustadoramente suspeitas.
O golpe fatal foi o gemido profundo que ela soltou na primeira penetração de Nogueira. Por mais agradável que estivesse lá dentro, o prazer da esposa lhe soava como uma agressão. E ele brochou no mesmo instante.
- O que foi, meu bem? – perguntou Samantha, com lambidinhas na orelha do marido, na esperança de reerguer sua auto-estima e seguir até o fim.
Calado, Nogueira simplesmente virou para o lado e dormiu. Ou melhor: fingiu dormir, porque apesar dos olhos fechados, o sono não veio.
Obcecado, ficou atento à respiração da esposa para ouvir se ela se masturbava enquanto ele dormia. Qualquer respiração mais funda era motivo para ele abrir uma fresta de seus olhos e observá-la. Mas Samantha dormia sinceramente.
Alta madrugada, ela levantou-se para ir ao banheiro e fechou a porta. Nogueira não resistiu e a seguiu. Colou os ouvidos na porta mas só ouviu barulho de xixi. Quando a descarga soou, correu e pulou na cama como se jamais tivesse levantado.
Na manhã seguinte, sem ter dormido por um único instante sequer, levantou-se cedíssimo para ir trabalhar, com cuidado para não acordar a mulher e não ter que ouvir sua voz insuportável. Quem sabe o trabalho o fizesse esquecer o pesadelo que fora sua última noite.
Foi até o quarto da filha se despedir, mas quando chegou perto de sua testa para dar um beijo, não conseguiu. Estava com ódio dela também. De alguma forma, era cúmplice da mãe. Nem os meros seis meses de idade inocentavam o inevitável fato dela ser mulher.
Tomou café da manhã numa padaria em frente a sua casa. Pão com manteiga, café com leite e, para finalizar, uma boa dose de cachaça, virada em um único gole. Foi inspirador. Pediu outra. Virou novamente. Sentiu os olhos arderem e o sangue ferver, e partiu para o trabalho.
Em alta velocidade guiando seu carro pelas ruas, ligou uma música qualquer no último volume. Longe do lar, entusiasmou-se com a liberdade de estar longe de sua família. Imaginou-se no puteiro com os amigos no fim do expediente. Sentia-se aliviado, não pensava mais no pinto de sua mulher.
No escritório, a primeira pessoa que viu foi sua secretária. Nunca sentira qualquer tesão por ela, que tinha o rosto coberto de espinhas e era um pouco gorda. Mas botou na cabeça que a comeria em algum motel no horário de almoço. Sentiu o volume crescendo dentro de sua cueca e fez questão de não esconder.
A secretária, constrangida, o lembrou da importantíssima reunião que teria com a chefia e alguns clientes da empresa.
Depois de uma piscadinha, Nogueira partiu para a reunião. Foi o primeiro a chegar e ficou girando em uma das cadeiras em volta da imensa mesa redonda. Estava em estado de êxtase, sentia-se realizado, vingado, livre. De tanto girar, porém, ficou tonto, enjoado, e o ato falho de sua mulher voltou a ocupar seus pensamentos como um tijolo pesando toneladas.
Aos poucos, a sala estava cheia de homens conversando sobre assuntos seríssimos da empresa. Ao olhar para aqueles homens, se pôs a imaginar se não seria de algum deles o pinto em que sua mulher estava pensando. Imaginou-os de calças arriadas, rindo de sua cara de corno. Olhou no olho de cada um e tentava procurar qualquer indício de culpa em alguém. Todos eram suspeitos. Lembrou dos amigos do boliche, dos amigos da faculdade, dos amigos do colégio, de todos os homens do mundo. Talvez todos já tivessem provado as delícias que sua esposa tinha a oferecer.
- Nogueira, tudo bem com você? – perguntou Dr. Barreto, o chefe, notando seu estranho comportamento.
O atormentado homem abriu a boca para responder, mas de lá saiu apenas um podre jato de vômito, contendo toda sua noite mal dormida. Isso interrompeu a reunião e lhe garantiu uma folga até o dia seguinte.
Em casa, com uma tremenda ressaca física e moral, foi tratado por sua esposa com chá, torradas e cama. A certa altura, entre gemidos de mal estar, balbuciou:
- ... amor...
- O que você disse, Nogueira? – perguntou a esposa, com um princípio de felicidade.
- Eu? Disse alguma coisa? – estranhou Nogueira, sinceramente surpreso e com a cabeça explodindo. – Deve ter sido um ato falho.
Virou-se para o lado e dormiu.
2 comentários:
quantos finais já não rolaram nesse.... bela ilustração!
Esse é bom!
Postar um comentário