segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Jorge


Otávio, um promissor estudante de direito, conheceu a descolada e loira Sabrina em uma festa da faculdade. A garota, estudante de moda, sabia chamar atenção através de seu visual, e conquistou o jovem com um breve e preciso olhar. O papo fluiu, e com a juvenil disponibilidade para o amor, em um beijo estavam apaixonadíssimos.
No entanto, apesar de loira, Sabrina não foi pra cama com Otavio naquela noite. Por um lado, isso o frustrou. Por outro, como todo aspirante a advogado, ele era conservador, e considerou aquilo um sinal de boa moça pra casar. Resolveu esperar o tempo que fosse.
Não foi muito. Na noite da primeira vez, Sabrina fez questão de manter as luzes apagadas. “Garota de respeito” pensou orgulhoso, torcendo para ela ser virgem. Não era. Porém, seu desempenho monumental na cama a redimiu. Seus movimentos delicados e agressivos, lentos e rápidos na medida justa e nos momentos precisos, levaram-lhes a atingir o orgasmo quase simultaneamente. Tal afinidade só podia ser destino. Dormiram de conchinha.
Na manhã seguinte, Otavio acordou primeiro e ficou observando cada detalhe do divino corpo de Sabrina. Levantou cuidadoso o lençol que a cobria. Era a primeira vez que via aquele corpo na luz, completamente nu. O pescoço, os ombros, as costas, a bunda, as coxas... Uma das coxas tinha uma tatuagem, alguma palavra. Aproximou-se para ler. “Jorge”!
Levantou-se correndo e vomitou no banheiro. Sua convulsão na privada acordou Sabrina, que se embrulhou nos lençóis e foi socorrer seu amor.
- Não percebi que você tinha bebido tanto ontem... Tá tudo bem?
- Não bebi. Deve ter sido alguma coisa que eu comi... – respondeu já escovando os dentes.
Sabrina baixou a cabeça, constrangida. Nesse momento, Otavio a olhou. Ela estava absolutamente linda embrulhada naquele lençol. Antes da trágica descoberta, desacostumado a associar tesão e amor, fora profundamente enfeitiçado por aquela loira. Agora, não tinha mais volta. Por maior que fosse o ciúme que estava sentindo, já não sabia mais como viver sem ela. Teve que enfrentar:
- Quem é Jorge?
Sabrina congelou. Percebeu que ele tinha visto a tatuagem que tanto tentara esconder. Até então, mesmo perdidamente apaixonada, mantivera a consciência do jogo da sedução e da necessidade de prender o homem antes que ele visse a manifestação física de seu primeiro amor. Naquele momento, porém, só restava abrir o jogo. E foi direta:
- Jorge foi um erro em minha vida. Assim como essa tatuagem. Meu primeiro namorado. Eu estava cega, fiz a tatuagem pra ele. Quando ele viu, se desesperou, achou que eu estava querendo casar e me largou. Sofri muito... mas passou! Todo mundo já teve seus amores e suas histórias. A diferença é que eu fiquei com essa herança maldita de um babaca que não faz parte da minha vida há mais de três anos. Hoje, é você que eu amo. Eu só quero você!
Racionalmente, Otávio compreendeu. A sinceridade da paixão de Sabrina e de sua explicação o obrigava a aceitar o fato e levar a relação adiante. Foi o que fez.
E, de fato, os bons momentos que viveram juntos a partir dali não permitiam qualquer arrependimento. Perder o grande amor da vida por um ciúme bobo teria sido um grande erro. Otávio e Sabrina eram um casal especial, iluminado. Viviam uma paixão radioativa, que contagiava as pessoas a volta. Quem ficava perto deles queria se apaixonar também.

Passados alguns meses de intensa felicidade, o fantasma da tatuagem assombrou novamente. O casal foi convidado a passar um feriado na praia com uma grande turma, na casa de um dos amigos de Otávio. Inocentes, aceitaram.
Sabrina tinha sempre muito cuidada com sua tatuagem. Por mais que o namorado já tivesse aceito o fato, sabia que não era bom lembrá-lo da existência daquilo. Na praia, porém, não havia como esconder. Quando ela tirou a canga para dar um pulo no mar, a tatuagem gritou em sua coxa. E todos os amigos de Otávio conheceram “Jorge”.
Ninguém comentou nada, mas o silêncio falou por todos. A viagem continuou: as cervejas, caipirinhas e banhos de mar chegaram a trazer a ilusão de contentamento. Mas, de volta a rotina, a verdade é que a vida de Otávio tornara-se um pesadelo.
A fofoca da tatuagem espalhou-se rapidamente. Otávio sentiu isso pela forma piedosa com que todos passaram a olhar pra ele. Qualquer amigo, mesmo os que não tinham estado na viagem, passavam-lhe essa mesma impressão.
O auge foi quando o pai de Otávio, num almoço de família em que a namorada estava presente, o chamou num canto e contou que chegara a seus ouvidos que Sabrina tinha um amante chamado Jorge. O jovem desesperou-se. Por mais que amasse a garota, não via mais futuro numa relação que o levaria a ser visto para sempre como um grande corno. Resolveu terminar tudo.
- Mas eu te amo! E sei que você me ama! Não podemos abrir mão de nossa relação só pelo que os outros pensam! Por favor, vamos ficar juntos. Eu te amo mais do que tudo!!! – Sabrina chorava, indignada.
- Eu sei que você me ama. Mas o mundo inteiro acha que você só ama o Jorge. Porque o amor que você teve por ele tem uma prova concreta, estampada em sua coxa. Cansei de ser visto como um corno. – dizia Otávio, tentando parecer firme.
De repente, Sabrina teve uma luz. E prometeu:
- Eu posso dar uma prova concreta de nosso amor, maior que qualquer prova de amor que já existiu.
- Não sei...
- Me dê uma chance, só uma chance! – chacoalhou-o, desesperada.
Otavio deu.

Poucos meses depois, Otavio está de pé no altar de uma Igreja, vestindo orgulhoso seu fraque, ao lado de seus pais e padrinhos, a espera de sua noiva. Soa a marcha nupcial. Entra Sabrina, conduzida com a ajuda de seu pai, segurando em uma mão um buquê, em outra uma muleta. Ela não tem mais uma das pernas. Foi enterrada com “Jorge”.