
Eugênio nasceu mergulhado nos livros. Leitor apaixonado, desde muito cedo alimentou o fetiche de se tornar escritor. E sua certeza de um futuro promissor na literatura era tanta que jamais se esforçou para ser descoberto. Sabia que isso viria naturalmente. Por isso, sua única preocupação em vida foi escrever.
E escreveu, literalmente, o livro de sua vida. A partir dos quatro anos de idade, começou uma espécie de diário que seria sua única obra. Todos os dias, escreveria sobre o que vivera. Como praticamente não vivia, acabava sempre escrevendo sobre escrever.
Sentia-se lido por todos a sua volta. Não estava vivendo, estava sendo narrado por alguma força maior. A ele cabia apenas transcrever essa narrativa em seu Livro da Vida.
Conforme envelhecia, detalhes iam ganhando cada vez mais importância. A exigência tornou-se tanta que um dia não mais conseguiu parar de escrever, pois o simples ato de parar teria que ser minuciosamente descrito por horas.
Seu único assunto passou a ser o movimentar de seus dedos nas teclas de sua máquina de escrever, e as letras e palavras que disso surgiam. Era um ciclo sem fim, uma obra condenada ao infinito.
Um belo dia, seus dedos tornaram-se independentes, e passaram a escrever sem necessidade de comando do pensamento. Com isso, sua cabeça ficou livre para pensar sobre outros assuntos. E percebeu a imensa quantidade de páginas que produzira. Era certamente o maior livro de todos os tempos. E ainda estava crescendo.
Além disso, como todo grande livro, aquele seria para poucos. Poucos teriam a coragem de ler um livro com tantos páginas. Para ser capaz disso, alguém teria que começar a ler ainda jovem e nunca mais parar.
Mas, mesmo os poucos que tivessem essa iniciativa já lhe pareciam muitos. Uma obra importante como a sua não merecia um acesso tão fácil. Não bastava seu estilo hermético nem tampouco a enorme quantidade de páginas. A humanidade precisaria ter ainda mais dificuldades.
Constatou também que deveria morrer. Os melhores autores estão mortos. Sua obra só receberia o devido valor se ele não mais estivesse vivo. Esse era, aliás, o único fim possível para a narrativa de sua vida: a morte.
Seus dedos, então, pararam de datilografar. No meio de uma palavra. Aquele era o fim perfeito para o livro. Faltava dar fim a sua própria vida.
Espalhou suas páginas por todo o quarto e colocou-se no centro. Com um isqueiro, queimou uma das folhas e não demorou para que o fogo se espalhasse. Para ler seu livro, a humanidade teria que realizar um cuidadoso processo de restauração.
Imaginou que a dor das queimaduras seriam menores que a falta que faria ao mundo. Enganou-se: morrer doeu, e foi inútil.
