segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O autobiógrafo





Eugênio nasceu mergulhado nos livros. Leitor apaixonado, desde muito cedo alimentou o fetiche de se tornar escritor. E sua certeza de um futuro promissor na literatura era tanta que jamais se esforçou para ser descoberto. Sabia que isso viria naturalmente. Por isso, sua única preocupação em vida foi escrever.
E escreveu, literalmente, o livro de sua vida. A partir dos quatro anos de idade, começou uma espécie de diário que seria sua única obra. Todos os dias, escreveria sobre o que vivera. Como praticamente não vivia, acabava sempre escrevendo sobre escrever.
Sentia-se lido por todos a sua volta. Não estava vivendo, estava sendo narrado por alguma força maior. A ele cabia apenas transcrever essa narrativa em seu Livro da Vida.
Conforme envelhecia, detalhes iam ganhando cada vez mais importância. A exigência tornou-se tanta que um dia não mais conseguiu parar de escrever, pois o simples ato de parar teria que ser minuciosamente descrito por horas.
Seu único assunto passou a ser o movimentar de seus dedos nas teclas de sua máquina de escrever, e as letras e palavras que disso surgiam. Era um ciclo sem fim, uma obra condenada ao infinito.
Um belo dia, seus dedos tornaram-se independentes, e passaram a escrever sem necessidade de comando do pensamento. Com isso, sua cabeça ficou livre para pensar sobre outros assuntos. E percebeu a imensa quantidade de páginas que produzira. Era certamente o maior livro de todos os tempos. E ainda estava crescendo.
Além disso, como todo grande livro, aquele seria para poucos. Poucos teriam a coragem de ler um livro com tantos páginas. Para ser capaz disso, alguém teria que começar a ler ainda jovem e nunca mais parar.
Mas, mesmo os poucos que tivessem essa iniciativa já lhe pareciam muitos. Uma obra importante como a sua não merecia um acesso tão fácil. Não bastava seu estilo hermético nem tampouco a enorme quantidade de páginas. A humanidade precisaria ter ainda mais dificuldades.
Constatou também que deveria morrer. Os melhores autores estão mortos. Sua obra só receberia o devido valor se ele não mais estivesse vivo. Esse era, aliás, o único fim possível para a narrativa de sua vida: a morte.
Seus dedos, então, pararam de datilografar. No meio de uma palavra. Aquele era o fim perfeito para o livro. Faltava dar fim a sua própria vida.
Espalhou suas páginas por todo o quarto e colocou-se no centro. Com um isqueiro, queimou uma das folhas e não demorou para que o fogo se espalhasse. Para ler seu livro, a humanidade teria que realizar um cuidadoso processo de restauração.
Imaginou que a dor das queimaduras seriam menores que a falta que faria ao mundo. Enganou-se: morrer doeu, e foi inútil.

Namoro por telefone


Lauro ficou com Suzana, o amor da sua vida, um dia antes dela pegar o avião para Barcelona, onde moraria pelos próximos seis meses. Foi uma noite inesquecível, na qual o sabor da conquista era proporcional ao sentimento de tragédia. A saudade doeria, mas aqueles poucos momentos de intensa paixão eram um potente combustível para uma espera de séculos, se preciso fosse.
Para Suzana, aquela era apenas uma farra de despedida e, embora tivesse deixado clara a vontade de viajar livre, leve e solta, acabou cedendo à paixão de Lauro e começando um namoro. Prometeu telefonar todos os dias em que estivesse fora.
O primeiro telefonema, porém, só veio no segundo dia de viagem. A jovem alegou que chegara tarde demais para telefonar e já foi contando todos os detalhes da viagem até então. Lauro ouvia tudo com devoção. A sensual voz de Suzana soava como uma lambida a distância em seus ouvidos. Ela, por sua vez, surpreendeu-se com a capacidade de ouvir de seu novo namorado. Todos os assuntos sobre os quais discorria pareciam interessantíssimos a seu ouvinte. Sentiu nascendo ali não uma paixão, mas um verdadeiro amor.
A partir de então, telefonava todos os dias narrando as novidades, descobertas e experiências vividas intensamente. Lauro ouvia em êxtase até as maiores banalidades. Queria saber de tudo nos mínimos detalhes para visualizar Barcelona e sentir-se ao lado de sua amada pelo menos na imaginação.
Após aproximadamente um mês de viagem, Lauro sofreu com a primeira quebra de rotina. Ficou cinco dias sem receber um único telefonema ou e-mail de Suzana. Sem se desgrudar do telefone, chorava convulsivamente imaginando os males que ela poderia estar passando. Quando estava a ponto de ligar para a Interpol para comunicar o desaparecimento internacional, seu telefone tocou e ele ouviu a voz que era sua razão de viver.
Envergonhada, Suzana confessou por telefone sua primeira traição:
- Desculpe, Lauro... Eu estava completamente bêbada. A galera toda dançando, se abraçando. Na hora, meu coração não viu mal nenhum em ficar com ele. No dia seguinte eu morri de vergonha, não consegui mais te telefonar. Mas falar com você me faz tanta falta, é como se eu precisasse te contar as coisas para me sentir vivendo... Me perdoa!!!
Aquela traição doeu fundo no coração de Lauro. Mas o prazer de ouvir novamente a voz de sua amada era maior que qualquer rancor:
- Faça o que fizer, quero que você nunca mais deixe de me telefonar e me contar tudo. Quero saber de tudo, sempre.
A partir daquele dia, para felicidade de Lauro, Suzana nunca mais deixou de telefonar e contar tudo o que vivia, inclusive as cada vez mais freqüentes traições, com diferentes homens de todo o mundo. Casos com espanhóis, italianos, marroquinos, franceses, belgas e russos apimentavam suas narrativas, cada vez mais poéticas.
Lauro não só ouvia a tudo compreensivo como a estimulava com perguntas sobre os mais íntimos detalhes. Queria mostrar para sua amada que o vínculo entre eles era maior que tudo, e que Suzana nunca precisaria deixar de falar com ele.
Funcionou. Mesmo quando arranjou um namorado brasileiro no meio da viagem, Suzana não deixou de telefonar. Descreveu como conhecera Marcão, o início da paixão e o prazer de estar praticamente em lua de mel num lugar tão lindo como Barcelona.
De volta ao Brasil com o novo namorado, Suzana continuou telefonando diariamente para Lauro. E continuaria para sempre, não fosse Marcão flagrá-la um dia ao telefone e querer saber quem era o palhaço do outro lado da linha. Ela contou tudo.
Indignado, Marcão partiu para a casa de Lauro e cobriu-o de porrada. A surra começou com um bem aplicado “telefone” e terminou com sangue e dentes pelo chão. Suzana testemunhou o massacre aos prantos.
Mesmo com a boca cheia de sangue e alguns dentes quebrados, Lauro teve forças para pedir a sua amada antes que ela saísse abraçada com Marcão:
- Me liga!
Lúcida, Suzana respondeu apenas:
-Se liga.
E partiu, para sempre.