segunda-feira, 25 de junho de 2007

A última mulher

Ana Maria era uma mulher atormentada por suas próprias estatísticas. Todos os homens com quem se relacionara em sua vida tinham se tornado homossexuais. Não havia sequer uma exceção a se apegar. Pra piorar, um agravante dava ares de tragédia a esses números: ela fora a última mulher de todos. A maioria tivera outros relacionamentos heterossexuais antes dela. Depois, ninguém. Apenas homens.
Um otimista diagnosticaria simplesmente como um problema na escolha. Talvez, a busca por alguém mais sensível a tornasse uma vítima constante de homens que saíam do armário. Mas Ana Maria não conseguia enxergar sua vida através desse prisma benevolente. Já se relacionara com todos os tipos de homens: sensíveis, grosseiros, gordos, magros, fiéis e até os piores canalhas. Não havia um que permanecesse Homem.
Na cama, ela tentava de tudo. Desde a primeira noite, tinha uma dedicação brutal a seus parceiros. Seu próprio prazer era indiferente. Como um trator, buscava sempre a perfeição em suas chupetas, punhetas e chaves de bocetas. Cada vez fazia mais, mais e mais, levando os homens a orgasmos inevitáveis. Porém, bastavam algumas semanas para seus relacionamentos terminarem. Outras mais e batata: lá estava seu ex com outro homem.
Quando ouvia amigas chorarem de dor de corno, tinha inveja delas. Tudo que ela queria era um homem macho o suficiente para trair. Sonhava com o dia em que flagraria seu namorado na cama com outra. Mas esse dia nunca chegou.


Ana Maria passou a evitar os finais de semana. Não queria mais saber de sair. Perdera as esperanças de conhecer alguém com quem desse certo. Sexta-feira, quando saía do trabalho, desligava seu celular, tirava seu telefone do gancho e só se conectava ao mundo novamente nas segundas-feiras.
Mas essa rotina de tristeza foi percebida por Poliana, uma observadora colega de escritório:
- O que há com você, menina?
Ana Maria jamais tinha trocado mais de duas palavras com Poliana. Trabalhavam em áreas diferentes da firma. Mesmo assim, ser chamada de menina derreteu seu coração , e começou ali uma relação diferente de todas as que já tivera.
Com Poliana, os assuntos fluíam mais fáceis, os programas eram mais tranqüilos e os sentimentos mais sinceros. A cumplicidade das amigas em pouco tempo transformou-se em amor. E chegou o dia do primeiro beijo.
Poliana levou Ana Maria a um bar GLS que costumava freqüentar. Lá, se abriu, contando que sempre tivera nojo de homens e que soubera desde cedo que só amaria outras mulheres.
A certa altura, um ex-namorado de Ana Maria passou com um homem. Trocaram olhares cumprimentando-se e sentaram-se em uma outra mesa.
- Hoje foi a primeira vez que não senti qualquer rancor ou nojo de um ex-namorado. Agora entendo que o homossexualismo é uma escolha, uma busca por felicidade, jamais uma doença. E, nesse momento, essa é também a minha escolha. – disse Ana Maria, epifânica, aproximando seu rosto de Poliana e a beijando.
Entregue, enfiou fundo sua língua, explorando com paixão esse novo universo. Depois, quis logo pagar a conta e levar seu novo amor para casa. Poliana aconselhou-a a dar um passo de cada vez, mas ela não quis saber, e lá foram ambas para a primeira noite de amor.
Na cama, Ana Maria aplicou em Poliana todas as carícias que gostaria de ter recebido na vida. Deliciou-se com a facilidade que era relacionar-se com alguém do mesmo sexo, como era fácil dar prazer para sua parceira. E levou-a a múltiplos orgasmos.
No dia seguinte no escritório, Ana Maria deu uma caixa de bombons para seu novo amor. Para sua surpresa, porém, Poliana se comportava de forma fria, evitando-a.
- O que há? – perguntou assustada.
- Acho que fomos rápidas demais...
- Não, não fomos! Eu estava preparada! Eu adorei! – tentou rápido contornar a crise.
- Mas eu não. Sei lá, acho que queria apenas uma amiga... Não sei... Prefiro que não sejamos nada além de amigas. – concluiu Poliana com uma crueldade sincera.
Ana Maria não conseguiu mais trabalhar nesse dia. Pediu dispensa para sua chefe e foi para casa, chorar até esgotar suas lágrimas. Depois, como uma Fênix, renasceu das cinzas. Aquele amor não dera certo, mas um novo mundo abrira-se diante de sua janela. Agora que descobrira seu novo lado, dava risada de seus antigos traumas. Voltou a sair aos finais de semana, abriu-se novamente para a vida.
Um belo dia, fazendo compras no shopping, reconheceu Poliana ao longe, em uma mesa de café, sozinha. Foi se aproximando para fazer uma surpresa, mas, antes dela, chegou um homem. Magro, de camisa aberta e peito cabeludo, entregou um buquê de flores para Poliana, que agradeceu com um molhado beijo na boca. Depois, saíram os dois para a fila do cinema.
Ao ver aquilo, Ana Maria congelou. Ficou na mesma posição, de pé, até o fim do dia. Os seguranças só foram perceber na hora de fechar as lojas:
- Senhora? Estamos fechando. A senhora não pode ficar aqui.
Mas Ana Maria permanecia estática, muda, sem mover um músculo e nem piscar os olhos. Os seguranças desistiram de tentar o diálogo e resolveram usar a força. Com dificuldade, carregaram-na até a entrada e lá deixaram-na, plantada no jardim externo.
Foi lá que, como uma estátua, ficou Ana Maria, cravada na mesma posição, com o mesmo olhar trágico, para todo e eterno sempre. A última mulher.

11 comentários:

eletrobeat disse...

legal teu blog, tu é doido tbm..

dá um bico no meu...
acho que vais curtir..

Anônimo disse...

esse tá genial.

maga disse...

curti os desenhos.
teus?

Felipe Sant'Angelo disse...

São do Norton Dallas.

F.Lessal disse...

Tá vendo como é bom ler tudo. Esse é ótimo! Caro Waldemar Sant'angelo, pra poder criticar é preciso conhecer profundamente o seu objeto de crítica.
Parabéns por esse!

Felipe Sant'Angelo disse...

Quem tá vendo como é bom ler tudo é você. Eu jamais perderia meu tempo. Não com esse fundo escuro do blog, que é bonitinho, mas deixa tonto. Quanto a conhecer profundamente o objeto de crítica, blablabla. Resta saber o real motivo da devassa no trabalho devasso de Waldemar. Neves.

F.Lessal disse...

Achei que estavas acima de querer saberos reais motivos de alguma coisa além de si próprio. Que pena essa demonstração de insegurança. Estava indo tão bem...

Felipe Sant'Angelo disse...

Não confunda falta de humildade com egocentrismo, nem curiosidade com insegurança. Sou um arrogante que tem a pretensão de querer conhecer a raça humana. Escritores que se prezem são movidos por curiosidade e tesão.

F.Lessal disse...

Ok Waldemar. Cansei da sua retórica. Confesso que me dá um pouco de sono essa sua necessidade de se auto afirmar...zzzzzzz
Adeus.

Felipe Sant'Angelo disse...

Há Deus?

Felipe Sant'Angelo disse...

De qualquer maneira, caro Sr. Lesa, você precisa compreender melhor seus próprios desejos. Por alguma razão, você tenta se fazer acreditar que está aqui por mim, pra me fazer um favor ao ler meus textos, e agora, quer jogar a culpa em mim por estar saindo. Você está só, meu caro, e o que faz ou deixa de fazer, só diz respeito a você.