Nogueira tinha inveja de Chico Buarque. Admitira isso para si mesmo quando assistiu a uma série de documentários em que o músico aparecia em algumas cidades do mundo falando sobre política, futebol, carnaval e mulheres. Não que sua música incomodasse. Aliás, muito pelo contrário: considerava-o um dos melhores compositores brasileiros. Sua inveja era motivada pelo excesso de atenção que aquelas meras divagações de botequim recebiam de todos. Ou melhor: de todas. Entre elas, sua esposa, Célia.
- É um cafajeste. Seu mérito é saber dizer o que elas querem ouvir. Mesmo hoje em dia, velho, magrinho, cabeçudo, ele ainda causa furor nos corações femininos. As mulheres o ouvem e ficam ouriçadas. Até as mais fiéis trairiam seus maridos com Chico Buarque. Afinal, é o Chico Buarque. – bradava Nogueira nas mesas de bar - Só que a intenção de nenhuma seria necessariamente se casar com ele. A questão é poder dizer para si mesma: “Fiz amor com Chico Buarque.”, e sentir que toda a poesia de suas músicas poderia ser para ela. Ou seja, o cara leva apenas a parte boa. O casamento fica por nossa conta.
O fato é que depois de anos longe dos palcos, finalmente Chico Buarque faria um novo show. Nogueira bem que tentou convencer sua esposa a não ir. Falou que os ingressos seriam caríssimos, que o público ficaria amontoado em mesas apertadas e posições desconfortáveis. Mas não houve jeito. Afinal, era o Chico Buarque.
No dia do show, desde a hora em que chegou do trabalho, Nogueira foi apressado pela mulher. Tomou um banho rápido, vestiu qualquer coisa e... esperou. Célia precisaria provar todas as roupas do armário antes de sair.
Horas depois, partiram. E como se não bastasse o congestionamento da hora do rush, a estressada Célia reclamou de Nogueira durante todo o trajeto, como se fosse ele o responsável pelo atraso.
Na casa de show, Nogueira pediu uma cervejinha pra relaxar. Funcionou tanto que, depois de alguns goles, tentou até reconciliar-se com a esposa. Acariciou sua coxa por baixo da saia, beijou seu pescoço, mas ganhou um definitivo “chega pra lá” quando entrou em cena Chico Buarque.
Depois de assistir ao show, mal acomodado e calado, Nogueira tinha ao menos a esperança de que o humor de Célia teria melhorado. Ela, porém, continuava inexplicavelmente tensa e um tanto histérica.
Em casa, já na cama, o piti derradeiro:
- Odeio esse travesseiro! Minha cabeça dói, meu pescoço fica torto... A culpa é sua Nogueira! Você e sua mania de economizar em tudo. Seu egoísta! – berrou Célia, atacando o travesseiro para longe. E antes que o marido tivesse direito de resposta, ela deitou-se, fechou os olhos e decidiu dormir.
Nogueira deitou-se virado para o outro lado, transtornado. Estava farto de tudo aquilo, farto de seu casamento, farto de Chico Buarque. Rolou na cama por umas boas horas sem conseguir dormir, até que ouviu no meio da madrugada uma voz, que cantava:
- O meu amor, tem um jeito manso que é só seu...
Olhou para a esposa, mas sua boca não se movia. Ela estava dormindo. O canto vinha de dentro de sua calcinha. Cuidadoso, removeu-a. Constatou que nela havia sangue, e que os lábios que cantavam eram os lábios de sua vagina. E cantavam para Nogueira:
- Eu sou sua menina, viu? Você é o meu rapaz. Meu corpo é testemunha do bem que você me faz.
Então, compreendeu tudo, e perdoou: ela estava de Chico.
terça-feira, 1 de julho de 2008
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14 comentários:
Ótimo, ótimo, gostaria de te conhecer Waldemar...
waldemar é como chico. não é pra casar, só pra fazer amor...
melhor ainda então!
mesma anônima.
argh!
você sempre vai mais além.
haha...
não conhecia seus textos, li esses dois últimos agora. você começa lírico e depois chuta tudo... é engraçado! Gostei, a gente vai mudando de humor a cada parágrafo, ora curiosas, ora interessada...
Pois é... seis meses sem postar... muito trabalho e trabalho brocha. Mas vou voltar , fico feliz que tenha gostado.
Vou em busca de seu livro!
inté!
Então é a cri cri, que quer ficar anônima, e tenta comprar seu livro. Sendo que anonima, não dá para enviar email com endereço . Na livraria cultura, devolveram por defeitos, no são pedro, quando fui estava fechado. Nessa minha vidinha , nunca vi o são pedro fechado, mas estava.. Enfim, ... como será , hein?
Waldemar,
há tempos não passava por aqui.
Bom saber que ainda se mantém de pé.
Abraço!
Acabei de ver Top!Top!Top! no pátio da São Francisco e tinha que saber mais sobre vocês.
Parabéns, adorei a peça.
Vocês foram capazes de me distrair da minha tese de conclusão de curso, a ser entregue amanhã.
E ainda me deparo com ótimos contos. Vou virar freguesa, haha.
Obrigada!
Aí aí vc.... Adoro!
Ah! Coloquei seu link no meu blog
beijo querido
Eu também tenho inveja do Chico Buarque. Além de compositor, agora ele também será o maior escritor do Brasil. A crítica não ousa criticá-lo. O que será de nós, reles bundões?
gostei... estamos juntos no museu da pessoa...rs
Pra variar, o final é sofrível...de ler. Estava indo tão bem Waldemar. Pra que esse final juvenil?
Pra que? Ora, meu caro, não tende apenas entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.
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