domingo, 15 de julho de 2007

O Torcedor



Marcão era um púbere completo, com direito a todas as piores características comuns a alguém de sua idade: espinhas, voz desafinada, jeito desengonçado de quem cresceu mais do que a coordenação motora poderia acompanhar, e um crescente tesão ao qual sua pífia experiência de vida só permitia dar vazão através da solitária masturbação.
Filho de um sujeito pacato, nunca fora levado a um jogo de futebol. O pai era um santista não muito apaixonado da fase pós-Pelé, e mal acompanhava os jogos pela TV. Um dia, porém, teve a oportunidade de conhecer o mundo do futebol com um amigo corintiano.
Moleques, quiseram logo se meter no meio da torcida uniformizada, onde a gritaria contagiava mais. No meio da massa, Marcão foi feliz como nunca. Gritou, pulou, cantou, ouvindo sua voz amplificada aos milhares, poderosa. Tanto fazia quem ele era, se tinha espinhas na cara ou uma vida irrelevante. Ali Marcão era o Corinthians.
A certa altura, o juiz marcou um pênalti contra o Corinthians. Sem nem pensar, Marcão xingou o juiz com todos os palavrões que conhecia. E seu ódio não era reprimido. Pelo contrário, ecoava pelo estádio, junto com a indignação de todos, aumentando cada vez mais. Quando o goleiro pegou o pênalti, a torcida explodiu. Ódio virou gozo, vibração. No campo, o time se contaminou e logo fez um, dois, três, quatro. Foi uma vitória marcante para o time do Corinthians, e um primeiro jogo inesquecível para o tímido Marcão.
No dia seguinte, no colégio, fez questão de ir uniformizado. Não precisava mais ficar calado porque tinha um assunto interminável: o futebol. Já completamente corintiano, xingou palmeirenses e são paulinos, peitou quem o xingava de volta. Pela primeira vez, seu tamanho desproporcional era uma vantagem. A garotas da classe, porém, o continuavam olhando com desprezo. Mas torcedor que é torcedor não precisa de mulher. Seu coração já tinha dono: o Corinthians.

Com o passar dos anos, entre derrotas, vitórias, humilhações e títulos, Marcão se tornava mais e mais corintiano. Mas percebia que pessoas a sua volta mudavam. Seus amigos amadureciam, pensavam em mulheres, não iam mais a todos os jogos. Mesmo assim, continuou firme. Em sua vida, o futebol era insubstituível, os amigos não. Trocou de turma. Era no estádio que sentia as mais intensas emoções, protagonizava os mais nobres sentimentos de coragem, fé, amor ao time. Cresceu na uniformizada, era respeitado pelos companheiros e requisitado nos momentos de pancadaria. Sentia orgulho por cada palmeirense que arregaçara na porrada.

Mas foi comendo um sanduíche de pernil antes de um jogo que Marcão sentiu que, mesmo entre os seus, sua vida não seria simples. Num dado momento, todos começaram a falar de mulher. Marcão tentou mudar o assunto, mas não conseguiu, e logo sua virgindade veio a público. Tentou mentir, mas era tarde. Em pouco tempo, todo o pessoal da uniformizada tirava sarro de sua cara. Chegou a ser chamado de São Paulino. Foi quando percebeu que teria que fazer sexo.
Sozinho, partiu depois do jogo para um puteiro próximo ao estádio. Pegou a mais barata e levou-a para um quarto imundo que lá havia. A moça vestiu nele uma camisinha, acariciou-o, mas nada do dito cujo subir. Marcão quis enfiar mesmo assim, ver se pegava no tranco. Mas não pegou. Culpou a camisinha, arrancou-a fora. A princípio, a prostituta se negou a ser penetrada. Mas, após uma certeira bofetada que a fez desmaiar, o torcedor continuou. Mesmo assim, não conseguiu. Saiu sem pagar e foi pra casa preocupado, mais virgem do que nunca.
Obviamente, para os amigos da uniformizada, mentiu sobre sua performance no puteiro e narrou orgulhoso a bofetada que dera na prostituta quando ela se negara a dar a segunda. Todos o parabenizaram com orgulho.
No jogo, um clássico lotado, final de campeonato, a torcida pulava como nunca, espremida. Mas para Marcão, a sensação não era de sufoco, e sim de um crescente prazer. Quanto mais espremido, mais prazeroso. Eram corpos quentes num movimento harmônico, roçando-se mutuamente. E Marcão explodiu num gozo contido apenas por sua cueca, gritando do fundo da alma:
-Timããããããããããããoooooooooooouuuuughhhhhhh!
O grito deu efeito. No mesmo instante, um zagueiro corintiano empurrado por uma força sobrenatural chutou a bola de uma distância improvável e marcou um golaço. O gol do título.
Enquanto o time carregou o zagueiro, a torcida uniformizada carregou Marcão. Todos tinham ouvido seu grito apaixonado. O verdadeiro herói do titulo fora ele.
Mas Marcão não queria ser carregado. Não gostava de estar só, ter destaque. Gostava de fazer parte de algo maior. E, aos gritos, contou o segredo de sua força.
Enojados, os torcedores o largaram no chão e a idolatria se transformou em ódio. Começaram a chutar, socar, pisar. Não havia defesa. Mas Marcão não sentia dor. Estava sendo destroçado não por um, mas pela massa.
Quando os torcedores pararam, não havia mais Marcão. Seus restos tinham se evaporado miticamente.

No campeonato seguinte, o Corinthians, que começara como grande favorito, estava ameaçado de rebaixamento. O time era o mesmo, mas parecia encantado. Não conseguia vencer. Torcedores, sem sucesso, faziam promessas para todos os santos. Um dia, o capitão do time, representando todos os colegas de grupo, intimou a torcida: “Porra!”
Por mais inconsciente, o recado foi certeiro. Desde a vibração mágica da final do campeonato passado, a torcida não passava a mesma emoção para o time.
Nessa noite, a uniformizada teve uma reunião de cúpula. Sabiam que tinham que vibrar como nunca para o time permanecer na primeira divisão. E resolveram espalhar o segredo de Marcão.
Quando o jogo começou, todos se amontoaram e começaram a pular e gritar. O nojo inicial foi substituído por um inevitável prazer. E o orgasmo veio coletivo, em massa.
No mesmo instante, o gol. E o Corinthians desencantou. Foi uma goleada, que resgatou a dignidade da nação corintiana. A partir dali, em todos os jogos a torcida usava o segredo de Marcão. Foi uma fase áurea.
Mas por algum descuido, o segredo de tanta paixão vazou, se espalhou entre outras torcidas, que, no desespero de conter a hegemonia corintiana, resolveram usar a mesma tática. E deu certo. Aos poucos, os campeonatos foram se reequilibrando.
Hoje em dia, não há um jogo em que amontoados torcedores não se rocem e gozem juntos por seu time. Não é a toa a superioridade do futebol brasileiro.
Por tudo isso, torcedor: vá ao estádio!

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Ato Fálico



O casamento de Nogueira e Samantha ia bem. Já durava dois anos e gerara um doce fruto: Nina, um bebê de seis meses. Naquela trágica noite, Nogueira acabara de chegar do tradicional jogo de boliche com os amigos e narrava um episódio qualquer ocorrido com um dos amigos:
-...e daí o Marcão falou “Mano, eu to muito doido pra derrubar esses pinos!”! Puta, a gente deu muita risada e... – continuaria mais uma longa história sobre como seus amigos são legais e engraçados, quando foi interrompido pela esposa.
- ...pinto... – disse Carol pra dentro, sem pensar, enquanto amamentava Nina.
- O que?
- O que o que? – estranhou Carol ter dito algo.
- Vc disse pinto! – exclamou Nogueira, já indignado com a ausência de justificativa.
- Fala baixo, Nogueira! Não diga pinto perto da Nina!
- Mas foi você quem disse!!!
- Disse? Nossa, nem percebi, deve ter sido um ato falho, sei lá... Onde é que eu tava com a cabeça, que loucura! – Deu um sorriso para a filha e beijou sua testa – Desculpe querida!
Onde é que Samantha estava com a cabeça era exatamente o que Nogueira não conseguia parar de imaginar. E sua cruel criatividade imaginara os piores pensamentos para sua esposa.
Preferiu calar e reprimir seu ciúme com medo de que quanto mais falasse em pinto, mais sua mulher se lembraria do pinto que a inspirara aquele ato falho. Ato falho! Como ela tinha a cara de pau de pensar nisso enquanto amamentava sua própria filha? Imagine o que estava sendo plantado no inconsciente da criança, através daquele leite contaminado de desejos. De cabeça quente, foi deitar.

Na cama, depois de botar Nina para dormir, Samantha chegou animada, e beijou Nogueira na boca. Depois, foi beijando seu peito moderadamente cabeludo e descendo até o umbigo, onde se insinuou disposta a dar-lhe prazer oral. Ele deixou, mas em seu pensamento, continuava atormentado.
O casal já tinha feito sexo em outras várias oportunidades. Provavelmente Samantha já seduzira seu marido daquela mesmíssima maneira outras vezes (a vida de um casal é fatalmente repetitiva). Mas, naquela noite, cada movimento, cada atitude que ela tomava eram assustadoramente suspeitas.
O golpe fatal foi o gemido profundo que ela soltou na primeira penetração de Nogueira. Por mais agradável que estivesse lá dentro, o prazer da esposa lhe soava como uma agressão. E ele brochou no mesmo instante.
- O que foi, meu bem? – perguntou Samantha, com lambidinhas na orelha do marido, na esperança de reerguer sua auto-estima e seguir até o fim.
Calado, Nogueira simplesmente virou para o lado e dormiu. Ou melhor: fingiu dormir, porque apesar dos olhos fechados, o sono não veio.
Obcecado, ficou atento à respiração da esposa para ouvir se ela se masturbava enquanto ele dormia. Qualquer respiração mais funda era motivo para ele abrir uma fresta de seus olhos e observá-la. Mas Samantha dormia sinceramente.
Alta madrugada, ela levantou-se para ir ao banheiro e fechou a porta. Nogueira não resistiu e a seguiu. Colou os ouvidos na porta mas só ouviu barulho de xixi. Quando a descarga soou, correu e pulou na cama como se jamais tivesse levantado.

Na manhã seguinte, sem ter dormido por um único instante sequer, levantou-se cedíssimo para ir trabalhar, com cuidado para não acordar a mulher e não ter que ouvir sua voz insuportável. Quem sabe o trabalho o fizesse esquecer o pesadelo que fora sua última noite.
Foi até o quarto da filha se despedir, mas quando chegou perto de sua testa para dar um beijo, não conseguiu. Estava com ódio dela também. De alguma forma, era cúmplice da mãe. Nem os meros seis meses de idade inocentavam o inevitável fato dela ser mulher.

Tomou café da manhã numa padaria em frente a sua casa. Pão com manteiga, café com leite e, para finalizar, uma boa dose de cachaça, virada em um único gole. Foi inspirador. Pediu outra. Virou novamente. Sentiu os olhos arderem e o sangue ferver, e partiu para o trabalho.
Em alta velocidade guiando seu carro pelas ruas, ligou uma música qualquer no último volume. Longe do lar, entusiasmou-se com a liberdade de estar longe de sua família. Imaginou-se no puteiro com os amigos no fim do expediente. Sentia-se aliviado, não pensava mais no pinto de sua mulher.
No escritório, a primeira pessoa que viu foi sua secretária. Nunca sentira qualquer tesão por ela, que tinha o rosto coberto de espinhas e era um pouco gorda. Mas botou na cabeça que a comeria em algum motel no horário de almoço. Sentiu o volume crescendo dentro de sua cueca e fez questão de não esconder.
A secretária, constrangida, o lembrou da importantíssima reunião que teria com a chefia e alguns clientes da empresa.
Depois de uma piscadinha, Nogueira partiu para a reunião. Foi o primeiro a chegar e ficou girando em uma das cadeiras em volta da imensa mesa redonda. Estava em estado de êxtase, sentia-se realizado, vingado, livre. De tanto girar, porém, ficou tonto, enjoado, e o ato falho de sua mulher voltou a ocupar seus pensamentos como um tijolo pesando toneladas.
Aos poucos, a sala estava cheia de homens conversando sobre assuntos seríssimos da empresa. Ao olhar para aqueles homens, se pôs a imaginar se não seria de algum deles o pinto em que sua mulher estava pensando. Imaginou-os de calças arriadas, rindo de sua cara de corno. Olhou no olho de cada um e tentava procurar qualquer indício de culpa em alguém. Todos eram suspeitos. Lembrou dos amigos do boliche, dos amigos da faculdade, dos amigos do colégio, de todos os homens do mundo. Talvez todos já tivessem provado as delícias que sua esposa tinha a oferecer.
- Nogueira, tudo bem com você? – perguntou Dr. Barreto, o chefe, notando seu estranho comportamento.
O atormentado homem abriu a boca para responder, mas de lá saiu apenas um podre jato de vômito, contendo toda sua noite mal dormida. Isso interrompeu a reunião e lhe garantiu uma folga até o dia seguinte.
Em casa, com uma tremenda ressaca física e moral, foi tratado por sua esposa com chá, torradas e cama. A certa altura, entre gemidos de mal estar, balbuciou:
- ... amor...
- O que você disse, Nogueira? – perguntou a esposa, com um princípio de felicidade.
- Eu? Disse alguma coisa? – estranhou Nogueira, sinceramente surpreso e com a cabeça explodindo. – Deve ter sido um ato falho.
Virou-se para o lado e dormiu.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

A última mulher

Ana Maria era uma mulher atormentada por suas próprias estatísticas. Todos os homens com quem se relacionara em sua vida tinham se tornado homossexuais. Não havia sequer uma exceção a se apegar. Pra piorar, um agravante dava ares de tragédia a esses números: ela fora a última mulher de todos. A maioria tivera outros relacionamentos heterossexuais antes dela. Depois, ninguém. Apenas homens.
Um otimista diagnosticaria simplesmente como um problema na escolha. Talvez, a busca por alguém mais sensível a tornasse uma vítima constante de homens que saíam do armário. Mas Ana Maria não conseguia enxergar sua vida através desse prisma benevolente. Já se relacionara com todos os tipos de homens: sensíveis, grosseiros, gordos, magros, fiéis e até os piores canalhas. Não havia um que permanecesse Homem.
Na cama, ela tentava de tudo. Desde a primeira noite, tinha uma dedicação brutal a seus parceiros. Seu próprio prazer era indiferente. Como um trator, buscava sempre a perfeição em suas chupetas, punhetas e chaves de bocetas. Cada vez fazia mais, mais e mais, levando os homens a orgasmos inevitáveis. Porém, bastavam algumas semanas para seus relacionamentos terminarem. Outras mais e batata: lá estava seu ex com outro homem.
Quando ouvia amigas chorarem de dor de corno, tinha inveja delas. Tudo que ela queria era um homem macho o suficiente para trair. Sonhava com o dia em que flagraria seu namorado na cama com outra. Mas esse dia nunca chegou.


Ana Maria passou a evitar os finais de semana. Não queria mais saber de sair. Perdera as esperanças de conhecer alguém com quem desse certo. Sexta-feira, quando saía do trabalho, desligava seu celular, tirava seu telefone do gancho e só se conectava ao mundo novamente nas segundas-feiras.
Mas essa rotina de tristeza foi percebida por Poliana, uma observadora colega de escritório:
- O que há com você, menina?
Ana Maria jamais tinha trocado mais de duas palavras com Poliana. Trabalhavam em áreas diferentes da firma. Mesmo assim, ser chamada de menina derreteu seu coração , e começou ali uma relação diferente de todas as que já tivera.
Com Poliana, os assuntos fluíam mais fáceis, os programas eram mais tranqüilos e os sentimentos mais sinceros. A cumplicidade das amigas em pouco tempo transformou-se em amor. E chegou o dia do primeiro beijo.
Poliana levou Ana Maria a um bar GLS que costumava freqüentar. Lá, se abriu, contando que sempre tivera nojo de homens e que soubera desde cedo que só amaria outras mulheres.
A certa altura, um ex-namorado de Ana Maria passou com um homem. Trocaram olhares cumprimentando-se e sentaram-se em uma outra mesa.
- Hoje foi a primeira vez que não senti qualquer rancor ou nojo de um ex-namorado. Agora entendo que o homossexualismo é uma escolha, uma busca por felicidade, jamais uma doença. E, nesse momento, essa é também a minha escolha. – disse Ana Maria, epifânica, aproximando seu rosto de Poliana e a beijando.
Entregue, enfiou fundo sua língua, explorando com paixão esse novo universo. Depois, quis logo pagar a conta e levar seu novo amor para casa. Poliana aconselhou-a a dar um passo de cada vez, mas ela não quis saber, e lá foram ambas para a primeira noite de amor.
Na cama, Ana Maria aplicou em Poliana todas as carícias que gostaria de ter recebido na vida. Deliciou-se com a facilidade que era relacionar-se com alguém do mesmo sexo, como era fácil dar prazer para sua parceira. E levou-a a múltiplos orgasmos.
No dia seguinte no escritório, Ana Maria deu uma caixa de bombons para seu novo amor. Para sua surpresa, porém, Poliana se comportava de forma fria, evitando-a.
- O que há? – perguntou assustada.
- Acho que fomos rápidas demais...
- Não, não fomos! Eu estava preparada! Eu adorei! – tentou rápido contornar a crise.
- Mas eu não. Sei lá, acho que queria apenas uma amiga... Não sei... Prefiro que não sejamos nada além de amigas. – concluiu Poliana com uma crueldade sincera.
Ana Maria não conseguiu mais trabalhar nesse dia. Pediu dispensa para sua chefe e foi para casa, chorar até esgotar suas lágrimas. Depois, como uma Fênix, renasceu das cinzas. Aquele amor não dera certo, mas um novo mundo abrira-se diante de sua janela. Agora que descobrira seu novo lado, dava risada de seus antigos traumas. Voltou a sair aos finais de semana, abriu-se novamente para a vida.
Um belo dia, fazendo compras no shopping, reconheceu Poliana ao longe, em uma mesa de café, sozinha. Foi se aproximando para fazer uma surpresa, mas, antes dela, chegou um homem. Magro, de camisa aberta e peito cabeludo, entregou um buquê de flores para Poliana, que agradeceu com um molhado beijo na boca. Depois, saíram os dois para a fila do cinema.
Ao ver aquilo, Ana Maria congelou. Ficou na mesma posição, de pé, até o fim do dia. Os seguranças só foram perceber na hora de fechar as lojas:
- Senhora? Estamos fechando. A senhora não pode ficar aqui.
Mas Ana Maria permanecia estática, muda, sem mover um músculo e nem piscar os olhos. Os seguranças desistiram de tentar o diálogo e resolveram usar a força. Com dificuldade, carregaram-na até a entrada e lá deixaram-na, plantada no jardim externo.
Foi lá que, como uma estátua, ficou Ana Maria, cravada na mesma posição, com o mesmo olhar trágico, para todo e eterno sempre. A última mulher.

domingo, 17 de junho de 2007

Beleza Interior



Ariel era antes de tudo um justo. Tinha fé na razão e na capacidade da raça humana de superar suas fraquezas animalescas. O que o movia era mudar o mundo. Sentia fome de justiça, desejo de igualdade. Suas necessidades básicas como comida, descanso e sexo eram apenas obstáculos a serem superados. Estava condenado a servir a humanidade para torná-la melhor.
Para atingir seu macro objetivo de mudar o mundo, Ariel fazia questão de ser um exemplo de conduta. Aplicava a igualdade em seu cotidiano: só namorava mulheres feias. Não era justo que as feias não pudessem amar e ser amadas. Para ele, só valia a beleza interior. Sempre acreditou que o verdadeiro amor não se preocupa com as aparências externas e vai muito além das questões do corpo.
Na cama, com suas feias, tinha certeza: fazia Amor, jamais sexo. Gostava especialmente das conversas que vinham depois. Fazia questão de ouvir cada detalhe de sua performance para na próxima vez agradar ainda mais sua amada.
Mas, a harmonia de sua pacata coerência foi tragicamente abalada quando um cheiro forte de perfume penetrou involuntariamente suas narinas. Estava no metrô, acompanhado de uma namorada feia, quando sentiu um poderoso cheiro que arrepiou todos seus pelos. Vinha de uma sueca, assustadoramente linda, tentando decifrar um mapa em um idioma que nitidamente não era o seu.
Por princípio, Ariel odiava perfume. Achava banho uma hipocrisia. Se ela precisava daquilo para conquistar as pessoas é porque não tinha nada melhor para mostrar ao mundo. No entanto, a sueca nitidamente precisava de ajuda e, mesmo desgostoso, sua vocação de herói o fez aproximar-se.
O sorriso de gratidão que ela abriu transpassou os limites do vagão e iluminou todos os túneis subterrâneos da cidade. Seus dentes, seus lábios, seu hálito, tudo excitava profundamente Ariel, que fez questão de ajudar rapidamente e voltar para sua namorada.
O trajeto de metrô nunca foi tão longo. Abraçou forte sua amada, que se animou com o volume roçando-lhe a cintura, pensando que aquilo era pra ela. A sueca o estava fazendo enganar involuntariamente sua namorada. Era a primeira mentira de sua vida. “O que está acontecendo comigo?” torturava-se, febril.
Os três desceram na mesma estação. Não contente com o que já causara, a sueca pediu que eles a indicassem algum banheiro nas proximidades. Ariel e a namorada resolveram conduzi-la a uma lanchonete que conheciam nas redondezas.
Fora do metrô, o dia estava ensolarado, perigosamente quente. Na lanchonete, a namorada aproveitou para comprar uma paçoca, enquanto o gentil Ariel acompanhou a sueca até o banheiro. O estreito corredor por onde passaram no caminho colocou-os a uma proximidade cruel. A beleza de seu pescoço era assustadora, assim como todas as curvas e recheios de seu corpo.
Ela entrou no banheiro feminino e Ariel ficou do lado de fora. Jamais sentira um tesão tão explosivo e incontrolável. Teria sido capaz de se conter não tivesse ouvido um ruído de um harmônico que ressoou por todos seus ossos: o xixi sueco caindo na privada.
Animalesco, entrou no banheiro ofegante, já baixando as calças. Flagrou a sueca parada na posição de aviãozinho sobre uma das privadas. Sentiu o orgasmo vindo só pela apreciação daquela imagem, e apressou-se para cravar-lhe o pau antes que gozasse. A moça não esboçou qualquer reação. Aparentemente, viera ao Brasil preparada para aventuras daquele tipo, e até gostou.
Culpado pela ejaculação precoce, Ariel fez questão de chupá-la. Quando abriu suas pernas e viu seu corpo por dentro, foi iluminado por uma certeza que o transformou pelo resto de seus dias: aquela era a verdadeira beleza interior.

O Homem que Gozava Triste

Como todos os filhos, tudo o que Ricardo queria era ser aceito pelos pais. Mas o pavio curto de Araújo, seu pai, o tornava um garoto tenso, e obcecado pela perfeição.
Cresceu impaciente consigo mesmo, revendo suas posições sempre que contestado, um autêntico democrata. Jamais ficava satisfeito com uma conquista. Havia sempre algo fora do lugar que o incomodava profundamente.
E como todo bom perfeccionista, Ricardo não suportava o comportamento feminino. Mas engolia seu ódio, imaginando que ao comer as moças extravasaria sua raiva. No entanto, isso não acontecia. Não conseguia sentir verdadeiro prazer em uma trepada. Era um eterno insatisfeito. Gozava, é verdade. Mas gozava triste.
Certo dia, em uma mesa com amigos, libertado pelo álcool, Ricardo declarou em alto e bom som seu ódio por todas mulheres que comera. Não se conformava como podiam ser tão estúpidas. Todas vacas, sem exceção. E terrivelmente chatas.
Ricardo ergueu-se até o banheiro. Mijou orgulhoso de suas palavras. Ah, se pudesse ter orgasmos com a felicidade de uma boa mijada. Mas enquanto refletia, na mesa seu destino era traçado com palavras duras. Amélia, moça única na mesa, era definitiva: “Essa coca é fanta.” Seu amigo mal pensava em defendê-lo e ela já sentenciava: “Conheço muitos. Eu corto minha teta como ele é viado.”
Ricardo voltou do banheiro desavisado. Na mesa todos observavam seus movimentos com perversa exatidão. Seus tiques femininos eram tragicamente eloqüentes. Ricardo, sem entender, sentia-se oprimido por seus colegas.
Nessa noite não conseguiu dormir. Rolou na cama de um lado pro outro. Em sua cabeça, apenas pintos: duros, moles, grandes, grossos, finos e circuncisados. Eles sufocavam Ricardo. Jamais sentira algo assim. Tinha nojo dos homens. Não ousava sentir uma barba masculina raspando seu rosto ou um falo macho roçando-lhe o rego. Mas sua imaginação tornou-se indomável.
Na manhã seguinte, olhou seus colegas de escritório com outros olhos. Qualquer camisa minimamente aberta, com pelos a mostra, provocava-lhe sensações que não conseguia conter. Os objetos pareciam adquirir novos significados: canetas, réguas, maçanetas e o possante freio de mão. Mas o pior ainda estava por vir: em seu escritório trabalhava Souza, bicha bem sucedida e máscula, cujo poderoso cargo de chefia o tornava o mais cafajeste dos homossexuais.
E não demorou muito para que Souza farejasse a instabilidade emocional de Ricardo. Intimou-o a um importantíssimo jantar de negócios, em seu apartamento.
Após comerem, enquanto batiam um papo terminando o cafezinho, Souza enfiou a mão entre as coxas do rapaz. Ricardo peidou de susto, mas não teve tempo de evitar o beijo quente que Souza lascou-lhe na boca.
Percebendo o estado atônito de Ricardo, Souza foi delicado como todo canalha sabe ser: “Não precisa dizer nada. Eu sei o que você está sentindo. Já passei por isso. Deixa que eu faço tudo.”.
E foi o que aconteceu: Ricardo foi totalmente envolvido e dominado por Souza, que penetrou seu rabo com o poder de um imperador. Ricardo era trespassado por uma dor insuportável, que rasgava do ânus até sua alma. O jato de sêmen de Souza, seguido por um uivo, arrancou-lhe lágrimas. Dedicado, Souza tentou retribuir o rombo que fizera em Ricardo. Mas seu prazer saiu como um pálido suspiro de adeus, triste.
Não. Dar o cu também não o satisfazia. Mas já era tarde. Os dias se passaram e Ricardo teve que admitir a curra. Agora era bicha, bicha e ponto. Passou a dar para qualquer desinteressado, esperando que um dia algum homem unisse seu gozo à felicidade. Mas era impossível, o sexo era sujo, dolorido, mecânico.
Até o dia em que encontrou Alvarenga, um homem que também gozava burocraticamente. Deu-lhe o cu e nada de um sorriso de seu algoz, que saiu inalterado. Aquilo o iluminou, havia encontrado o nirvana, seus olhos brilhavam, já esquecera de seu ânus arregaçado. Nem foder nem ser fodido. O que valia era a comunhão do gozo triste. E eles gozaram, chorando, tristes para sempre.

O Homem que só Perdoava



Desde a infância, Carlos era um tipo calado. Aprendeu cedo a ouvir cuidadosamente os outros antes de tomar qualquer atitude. Isso o fazia sentir-se longe das imperfeições de sua alma.
E Carlos cresceu dessa forma: calado e superior, compreendendo o mundo a sua volta. Aos 20 anos, já era um responsável estagiário de direito, amigo de todos e com um promissor futuro no escritório. Porém, Carlos era obcecado por neuróticas.
Sim, a primeira coisa que Carlos procurava em uma mulher era o defeito. E quanto maiores e mais espalhafatosos, mais excitado ficava. Sentia uma necessidade devastadora de estar perto de alguém que só fizesse cagada.
Cedo, apaixonou-se por Lucélia, mulher vivida apesar de seus 17 anos, de uma sinceridade com seus sentimentos que a tornava a mais impulsiva das neuróticas.
Após o sexo, Carlos adorava ouvir calado suas crises e angústias, brigas com outras garotas, e depois de horas, desfechar o assunto com uma opinião redentora dos erros da garota. Mas ela sempre errava de novo.
Com alguns meses de namoro, Lucélia passou a sair um pouco mais com as amigas da escola. E inevitavelmente, acabou comida por um colegial. Sincera como só ela, Lucélia resolveu se abrir para o namorado.
Carlos ouviu atento, com certa dor no coração, mas vendo aquela sincera menina-mulher a sua frente, não conseguia condená-la. Era apenas humana, e errava! E em atitude nobre, perdoou sua amada.
Ao completar 18 anos, Lucélia tomou um tremendo porre com seus amigos na saída do colégio. Foram todos pra casa de um deles e o resultado foi uma tremenda orgia, um autêntico “5 a 1” em que Lucélia não ficou com um buraco vazio.
Arregaçada, voltou pra casa pensativa. Por que fizera tudo aquilo? Como pudera ser tão vaca e sujar dessa forma sua relação com o bondoso Carlos. Namorava um santo e só dava desgosto a ele. Sabia que dessa vez ele não aceitaria. Nenhum homem seria capaz de perdoar um 5 a 1 como aquele. Mas Lucélia não convivia com a mentira.
A primeira coisa que fez ao receber a visita de Carlos em sua casa foi virar o rosto. “Não sei se você será capaz de me beijar de novo após o que eu fiz hoje...”. Carlos, com flores e presentes na mão, entrou e ouviu o relato mais minucioso de um bacanal que alguém jamais fizera. Lucélia foi cruelmente detalhista, mas sincera.
Carlos ouviu como nunca. Quanto mais detalhes ela contava, mais ele queria saber. Era seco, mas deixava Lucélia contar isso deitada em seu colo. Ao final do relato, ela chorou e gritou, estava totalmente enojada consigo mesma.
Clerical, Carlos deu um beijo na testa da amada e disse:
- Se você se arrepende, eu a perdôo.
Lucélia emudeceu. Mal conseguia respirar. Largou Carlos e andou ao redor de seu quarto, desesperada.
- Eu não mereço, eu não mereço!!! – começou a gritar.
Carlos foi definitivo:
- Claro que merece meu amor, merece até mais. Você não escolheu nascer mulher.
Eternizada, Lucélia agarrou o namorado com paixão e fez tudo o que uma mulher sabe fazer, inclusive engravidar. Durante a concepção, vociferava:
- Que nasça homem!

Morra Triste


Quisera eu contar aqui uma história cheia de harmonia e paz. Mas não há na vida harmonia duradoura.
A tragédia teve início na madrugada em que o menino Silvinho, convulsionado por uma dor de barriga, acordou no meio da noite. Dado que faltava papel higiênico em seu banheiro, saiu pela casa, rumo ao quarto dos pais, onde ficava a base da higiene familiar.
Entrou em total silêncio, e logo notou que a luz do banheiro estava acesa. Aproximando-se, ouviu estranhos ruídos. Decidiu olhar pela fresta o que acontecia. Foi seu erro: sua tão amada e admirada mãe encontrava-se no bidê, em posição totalmente ordinária, dando pulinhos e breves gemidos de prazer, enfiando em sua vagina um poderoso vibrador.
No susto, Silvinho cagou-se. Correu para seu quarto e encolheu-se na cama, todo coberto, rezando baixo para que aquilo fosse um pesadelo. Infelizmente, porém, era a dura verdade. E ele havia borrado as calças.

Dez anos depois, o garoto estava completando os estudos que o tornariam artista plástico. No meio das Artes, Silvinho sentia refletido seu rancor sexual. Lá era mais fácil, ao reprimido, martirizar-se, já que essa era uma atitude coletiva.
Foi quando seu pai faleceu.
Ele não pôde se conformar: o mundo era muito injusto. Por que o destino não levara sua mãe, aquela vaca que tornava impossível a convivência familiar?
O que mais o revoltava era a certeza, absoluta, de que se sua mãe quisesse, poderia não ser uma vadia. Se ele conseguia castrar seus desejos, por que ela não? O pai fora um coitado a vida toda, sacrificado por aquela víbora da siririca. Só a vingança limparia a memória do morto e ignorante pai.
No mesmo dia, comprou um vibrador longo e grosso, de potentes freqüências, e junto com ele, creme lubrificante. Misturou no creme um feroz veneno. No dia seguinte, presenteou a mãe com o kit mortal:
- Sei que a senhora vai se sentir sozinha.
A mãe, ultrajada, quis não aceitar, mas Silvinho, artista plástico, não sabia ouvir não sem dar “piti”. Foi irredutível. O “presente” então, lá ficou.
Seu luto já durava um mês, quando em noite solitária, a mãe abriu para ver e sentir o “presente” que o filho havia comprado. O lustroso vibrador era realmente grande e grosso, e a excitava profundamente. Decidida, embebeu o artefato no inusitado lubrificante e penetrou-se com sofreguidão. Jamais uma masturbação fora tão boa, tocou-lhe o útero! Mas durou pouco. O prazer que lhe ardia corroia por dentro, e com intensos gemidos, caiu dura no chão. Seca.
Foi no velório, porém, que Silvinho teve sua última, mas não menos trágica surpresa: ao aproximar-se do caixão, aberto, viu estampado no rosto da mãe, que jazia entre brancas flores, um imenso sorriso eternizado. Um sorriso de prazer supremo, cínico e dionisíaco, digno da maior das vacas.
Em um ato de loucura, começou a esbofetear a morta.
- Morra triste! Morra triste!...- gritava antes de ser contido por parentes. Mas a mãe continuava impassível.
Desesperado, Silvinho correu para casa, foi ao fúnebre banheiro e lá encontrou, ainda lambuzado, o vibrador assassino. Foi definitivo: enfiou-o no cu com um urro de prazer, até cair morto. Aliviado.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A Encharcada


Doutor Rodolfo Maia era médico ginecologista. E, como todos ginecologistas, um tremendo canalha. Era um caso de paixão aguda por vaginas, e as conhecia como ninguém.
A cada festa, boate, ou qualquer evento que fosse, Dr. Maia fazia questão de aplicar seus conhecimentos: catava uma mulher e a levava às nuvens. Mas nem mesmo ele podia esperar um caso como o daquela garota: Dalva dos Anjos.
A moça era atriz, e sentia-se de longe seu cheiro de ordinária. Dalva dos Anjos era tudo o que os homens sempre quiseram: uma bela trepada de uma noite só. Mas ela preferia que não fosse assim. Apesar de atriz, Dalva não era puta. Seu sonho era um compromisso sério. Talvez, se não desse tudo na primeira noite, os homens poderiam ligar pra ela no dia seguinte.
Mas Dalva vivia uma tragédia pessoal: não conseguia ficar sem uma trepada. Por mais que tentasse se controlar, afastar a mão boba do parceiro, seu tesão era maior que tudo. Ia até sem camisinha! Com Dalva dos Anjos era batata: catou, comeu.

Certa noite, o destino de ambos cruzou-se em uma festa. Sentindo o cheiro de trepada, Dr. Maia logo se aproximou de Dalva. Não demorou mais que um copo de vinho para os dois se atracarem como animais e irem para um canto qualquer.
Tudo ia de forma deliciosa até que em um bela passada de mão, Dr. Maia notou secreção vaginal nas coxas de Dalva. Subiu um pouco mais e percebeu que a calcinha estava absolutamente úmida e, ao enfiar o dedo na dita cuja, parecia que acariciava um rio selvagem. Naquele momento, Dr. Maia constatou a tragédia da moça: Dalva era a mais encharcada da mulheres.
Após comê-la, achou justo botar Dalva a par do fato, e foi categórico: “Nunca vi mais encharcada!”. Dalva não hesitou: começou um tratamento hormonal com o próprio Dr. Maia.
Mas o tempo passava, e o fogo não apagava. A medicina não tinha armas para secar a paixão de Dalva, que ficava mais pálida a cada dia. Sua natureza a tornara mero objeto dos homens a sua volta. A situação foi ficando cada vez mais insuportável.
Até que um dia, estranhando sua ausência, Dr. Maia foi até a casa de Dalva e a encontrou esparramada no chão, morta. Seu ventre estava mutilado e a mão ainda segurava o violento bisturi. Ao seu lado, jazia um fúnebre bilhete:
“Quem me fodeu, se fodeu: eu tinha AIDS.”